Sempre nos surpreendeu, a todos nós que o conhecemos bem, as súbitas e rápidas viagens de Rubem Braga a todos os recantos do país. É rara a semana que o velho Braga não deixa o lar por dois, três dias, reaparecendo depois atrás da mesa de um botequim, e dizendo: “Fui ao Acre”.

Os íntimos sabem que ele inaugurou mais coisas no Brasil do que o Presidente da República. Não há quase nada que se inaugure ou que se celebre que ele não seja convidado. E não há ― positivamente não há ― convite a que ele recuse.

Em um esforço de reportagem, procuramos o renomado cronista, tentando fazer um apanhado retrospectivo de todas as suas viagens com as suas respectivas motivações. Nem tudo pode ser lembrado pelo criador da “Borboleta amarela”, no entanto, o que aqui transcrevemos já dá uma ideia de sua alta capacidade inaugurativa:

Foi ele uma vez a Curitiba para inaugurar o Lord Hotel; inaugurou também um hotel em Guarapari; em Paquetá, inaugurou as obras de reforma da casa de D. João VI; em Três Lagoas (Mato Grosso) inaugurou uma ponte; em Agudos, participou da inauguração dos armazéns do Departamento Nacional de Café; em Belo Horizonte, de um frigorífico modelo; em Poços de Caldas (diz ele) “inaugurei um ditador do Uruguai, aí por volta de 1934”; em Manaus, o motivo da viagem foi um instituto de puericultura; em São Luís, há muitos anos, um campo de trabalhadores; a Araçatuba foi o Braga festejar a inauguração da Biblioteca Rubens do Amaral; a Bauru, a estação da Noroeste; em Belo Horizonte (diz ele), “inaugurei a morte do presidente Olegário Maciel, tendo assumido o governo, sem mentira nenhuma, durante uns trinta minutos”; em Pilar, na Paraíba, inaugurei um busto de José Lins do Rego; em Joinville, uma usina elétrica; em Salvador, a Praça Dorival Caymmi; em Belém, a boate do Grande Hotel; em Fortaleza, a nova casa de um amigo; em Lussanvira, uma ponte sobre o rio Tietê; em Recife, uma exposição de Cícero Dias; em Florença, um aeroporto; em Lyon, uma fábrica de tratores especiais para a plantação vinícola; em Guaporé, um leprosário: em Londrina, uma estação rodoviária; em Porto Alegre, a Exposição Farroupilha, em companhia de Osório Borba, em 1933; campos de aviação, que ele se lembra bem, já participou pelo menos da inauguração de quatro: o de Rio Preto, o de Cachoeiro do Itapemirim, o de São Carlos e o de Araçatuba (“fui durante muito tempo um convidado permanente da VASP no setor de inaugurações aeronáuticas”); em Alegre, inaugurou o campo de futebol do Alegrense F. C.; em Teresina, um posto de saúde do SESPI; “em Recife, em 1935, inaugurei um xadrez, que tomou o apelido de Brasil Novo, fazendo parte da primeira leva de presos”; em Belo Horizonte, o nunca esquecido Montanhês, cabaré de Mme. Olimpur; em Linhares, no Rio Doce, uma serraria; na Foz do Iguaçu, o Hotel Estadual; etc., etc., etc.

Sem falar nas inaugurações de São Paulo, o que só poderia ser feito, em série, nas edições dominicais do Jornal do Comércio. Sem falar em Newton Freitas e em Di Cavalcanti... Rubem Braga participou de quase todos os atos inaugurais existentes nas biografias desses dois brasileiros.

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