Cheguei um pouco atrasado no Caju, e precisava perguntar na recepção, ou que melhor nome tenha, para onde tinham conduzido o meu morto. O funcionário prestava no momento umas informações a uma senhora de uns quarenta e poucos anos, toda vestida de preto, já bastante amarelecida em seu princípio de outono.

– Qual dos dois o senhor acha melhor? – perguntou a mulher. Pode dizer com toda franqueza.

– É para a senhora mesma? – quis certificar-se o empregado, um sujeito gordo, de bigodes opulentos e tisnado, que mais adequadamente prestaria serviços num restaurante de terceira classe do que num cemitério.

– Sim, é para mim mesma, ela confirmou com naturalidade.

Ele resolveu ficar levemente galante e ponderou sem maior convicção:

– Mas a senhora tão moça, tão forte, e já pensando nessas coisas...

É do meu temperamento, cortou a dama. Resolvi deixar tudo isso bem arrumadinho. Isso de estar forte não significa coisa nenhuma. A gente nunca sabe quando vem a bicha... E eu tenho na vida uma coisa que não suporto: dar amolação a parentes.

– Bem, como é para a senhora mesma, vou ser muito franco. O da quadra 16 é melhor. Mas muito melhor!

– Mas por quê? Aquele perto do muro me pareceu que não tinha inconveniente algum. O senhor quer saber de outra? Coisa que me dá aflição é ficar no meio do bolo. Desde menina que sempre preferi os cantinhos, onde ninguém pode me amolar...

– Mas...

– Não precisa dizer. É mania, eu ainda estou aqui, e não suporto confusão. Depois, gostei tanto daquelas flores, tão bonitas, tão amarelinhas...

– A senhora vai me desculpar, insistiu o funcionário, mas as flores não querem dizer nada.

– Como assim?

– É claro, madama. Aquelas plantas nasceram ali eu nem sei como. Amanhã elas morrem e fica tudo pelado que dá gosto. Vá por mim, madama: eu sou um empregado e não devo ficar dando com a língua nos dentes... Mas a senhora devia escutar o meu conselho: fique com o da quadra 16, que estará muito bem servida.

– Mas qual o motivo? Pode dizer.

– Madama, para bom entendedor, meia palavra basta.

– O senhor não repara, mas todo mundo que me conhece me chama de Maria Teimosa. Se o senhor não me contar porque aquele perto do muro não serve, não arredarei o pé daqui.

O funcionário olhou para os lados, inclinou-se um pouco, sorriu vencido, e disse em voz mais baixa:

– Estou mesmo vendo que com a madama é fogo. Pois bem, se a senhora me promete segredo...

– Claro, disse ela, muito contente ao entrever a possibilidade de fazer a piada, serei um túmulo.

O gordo, num sussurro, quebrou o segredo profissional:

– Aqueles perto do muro dão água.

– Dão água?

– Quer dizer, entra água neles.

– Muita água?

– Muita.

– É... realmente... com água é meio desagradável. Nada nesta vida sai como a gente quer! Pois bem, então fico com o da quadra 16, que hei de fazer! Mas o senhor nem pode imaginar a minha tristeza. Eu achei aquele perto do muro, com aquelas florinhas amarelas, tão repousante, tão simpático!

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