7 fev 1962

Romance dos pequenos anúncios

 
Fonte: O jornal de Antônio Maria. Rio de Janeiro, Saga, 1968, pp. 53-56

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De fato, quando o marido acordou mandou comprar, em vez de um maço, um pacote de Minister. Tomou banho normalmente, despedindo-se de Corina, com o mesmo beijo e a mesma frase:

– Não vai pra rua, não, sim?

Isto, às nove da manhã.

Ao meio-dia, encostou um caminhão do Studio Josias, com um aparelho de refrigeração, uma máquina de lavar, uma geladeira e, por mais incrível que pareça, um bebedouro elétrico, desses de repartição pública, colégio e quartel. Corina perguntou muito se não havia engano e só depois de saber que não, assinou o protocolo. Cinco minutos depois, um caminhão, com dois pianos, sendo um 3/4 de cauda. Enquanto os homens descarregavam os pianos, parou um táxi e desembarcou um rapazinho, com um embrulho enorme, de Laís Modas. Meia hora mais, e chegou o órgão elétrico (igual ao de Djalma Ferreira). Já Corina havia telefonado à sua irmã, pedindo-lhe que "desse um pulinho"...

Finalmente, às três da tarde, telefonou Dr. Athos, amigo da família, lamentando, mas, contando que Reginaldo comprara também a casa de Silvério Célia (a de telhado azul). Disse que Reginaldo só fora recolhido quando tentava comprar o Corcovado, com Cristo e tudo, alegando que aquele local iria valorizar muito. Os médicos haviam optado pela sonoterapia para, depois, resolver o que iriam fazer. Reginaldo já estava dormindo, no Sanatório Botafogo.

Corina ouviu tudo, arriou-se numa cadeira e gritou para a irmã:

– Alcione, vai na mesinha de cabeceira e traz um vidro de Miltown!


22/1/1962

Vendem-se jumentinhos p/montaria de criança ou
reprodução de cavalos. Manga-larga (marchadores)
para o mesmo fim. Informações fone.......

De fato, a esposa tinha um vocabulário antigo e algumas expressões, há anos, fora de moda. Dizia muito, por exemplo:

– Que medo, ô!

Mas, não havia motivo para tamanha irritação, se estavam casados havia, apenas, três anos. O amor se desgastara. Já lhe analisava o corpo, com certa frieza. Os quadris, por exemplo, achava que cresciam dia a dia, embora, em janeiro de 1958, fossem eles uma das razões de ter abandonado Dona Bebé, sua primeira mulher, mais que isto: uma mãe.

Olhava para Margarida e pensava: "Está no ponto de voltar para São Paulo! E Margarida, sem dar muito para o desagrado em que caía, ia e vinha, falando suas expressões de... 1946:

– Tudo azul? Tudo azul, com bolinhas cor-de-rosa?

Duas noites atrás, ele, Dagoberto, fizera dessas confídências a Vinícius, que lhe dissera ser o terceiro ano o mais perigoso do casamento.

A meditação caseira de Dagoberto foi interrompida pela cigarra da porta. Margarida disse que era com ela e foi abrir. Dagoberto ouviu uma voz de homem, dizendo à sua esposa que o porteiro não queria deixar o animal entrar. E ouviu Margarida responder, rispidamente:

– Como não entra? O síndico é meu marido.

Cinco minutos depois, surgia Margarida na sala, puxando um jumento.

– O que é isto, Margarida?

– Comprei, Dagoberto. Sempre foi o meu sonho. Agora que temos um apartamento maior, faça o favor de não me impedir de criá-lo.

E abaixando-se beijou o jumento nas orelhas e lhe perguntou, fazendo voz de quem fala com criança:

– Tudo azul? Tudo azul, com bolinhas cor-de-rosa?

Dagoberto não disse uma só palavra. Andou até à cozinha, saiu pelo elevador de serviço e, naquela mesma noite, tomou um apartamento no Hotel Plaza, para sempre.


1/2/1962
 

VENDE-SE – Tinteiro de prata português com mais
de cem anos na família. Tel. 27........


De cara, nem tanto, mas, de corpo, era como dizia o velho Graça, escrivão, amigo de Bororó, residente no 703 do mesmo prédio:

– Uma mulher que enche o maiô.

Nome e dados antropométricos: Teresa, 1,68 metros, descalça, 56 de cintura, boa dona de casa, louca por criança, embora não tivesse filhos. Não era de dormir tarde e de muito sair. Saía só de tarde, depois das quatro. Às sete, sete e dez, já estava em casa.

O marido, Geraldo, não tinha emprego certo. Fazia negócios, nos quais ganhava bem. Planejava fazer um programa de televisão e dizia, muito:

– Um programa sobre o rock.

Teresa se arrepiava, dos pés à cabeça, ao ouvi-lo falar no tal programa sobre o rock. Falava alto Teresa, ao mesmo tempo, para ver se lhe encobria a voz. O rock. Detestava essa intimidade. Por que não chamava: rock'n'roll?

Naquela noite, tinham pessoas para o jantar. Geraldo chegou antes e, quando Teresa voltou da rua, o marido estava no meio da sala, falando: porque o rock... o rock... E as amigas, só de gozo, puxavam por ele. Teresa foi para o quarto, leu Maurício de Paiva, tomou um Namuron e dormiu. Acordou eram quatro da manhã, com Geraldo a seus pés, os olhos apitombados, perguntando por que tinha sido.

– Nada, Geraldo. Nada. Eu vou-me embora.

– Mas, embora para onde?

– Para a casa de mamãe.

Caminhou, trôpega, para o espelho e começou a escovar o cabelo.

– Mas, vai quando Teresa?

– Hoje, já.

Geraldo começou a chorar, de costas para ela, com os ombros subindo e descendo, mas, sem barulho. Teresa deu-se por penteada, alisou o vestido com as mãos (dormira vestida) e disse, baixo, porque tinha que dizer alguma coisa:

– Fica assim, não, meu bem.

Na escrivaninha, levantou o tinteiro de prata e separou para levar. Pegou o telefone, fez uma ligação e, depois de muito esperar, o marido ouviu-lhe a voz:

– Serginho? Eu. O negócio estourou. Amanhã a gente se fala. Deixa, eu ligo para o Ministério. Tá.

Carregou o tinteiro e saiu. A mãe morava uma quadra adiante. O caminho inteiro, pensou: Odeio quem fala rock.

antonio-maria