8 set 1964

Tentativa de suicídio

 
Fonte: O jornal de Antônio Maria. Rio de Janeiro, Saga, 1968, pp. 127-128

Já falei de Godofredo, distinto corrupião patrício, que divide comigo as delícias e glórias de um apartamento (quarto, sala e piscina), em Fernando Mendes. Godofredo é solteiro, discreto, e tão discreto, que não canta. O único corrupião, ou sofrê, que não canta o Hino Nacional. 

Vivíamos em boa paz e, dentro da medida do possível, um cuidava do outro. Isto é, ele cuidava mais de mim do que eu dele. Projetávamos, no futuro, arranjar mulher. Uma para os dois. Se não desse certo, apelaríamos para a solução banal, uma mulher, que fosse só minha e uma corrupiona, só para ele. 

Até ontem, Godofredo levava uma vidinha tranquila. Ou eu achava isso. Acordava, tomava banho, comia seu petit déjeuner (ovos, pepino e vitaminas) e passava o dia aos saltos, alegremente, como o pato da bossa-nova. "Este passarinho é débil mental" – cheguei a pensar. Mas, não. Godofredo tinha uma coisa dentro dele. Um desgosto, e eu não sabia. Por volta das três horas, quando fui vê-lo, encontrei-o cutucando o prego da gaiola, com a ponta do bico. Falei!

– Vê lá, Godofredo.

Ele disfarçou, deu um salto, comeu um pouquinho do ovo cozido e ficou nisso. Às quatro e dez, quando tornei a vê-lo, toda a parede em volta do prego já estava comida e Godofredo, numa bicada valente, arrancou o prego. Claro, a gaiola despencou e eu mal tive tempo de gritar, histericamente:

– Godofreeeeeeeeedo!

Da sala, vieram correndo, Dona Verinha, Ivan Lessa e Murilo Almeida:

– O que foi?... – perguntaram os três. Mostrei a gaiola no chão, onde Godofredo jazia, desacordado. Morto? Não se sabia. Começamos a chamá-lo pelo nome: Godofredo! Godofredo! E, depois, com ternura: Godô! Godôl Godô! Abriu um olhinho, envergonhado. Respiramos. 

Meu pobre passarinho tentara o suicídio. Depressão, desencanto, situação econômica – não sei. O que sei é que Godofredo, num gesto tresloucado, arrancou o prego de sua gaiola e atirou-se ao solo. Isto é grave, porque, que se saiba, é o primeiro corrupião, que procura a morte, com o seu próprio bico. 

Conversamos. Não quis dar altura. Mas, nota-se, em cada instante do seu silêncio, que o corrupião patrício, Godofredo, está precisando de uma corrupiona. Vamos providenciar. Uma para mim e outra para ele.

antonio-maria