Fonte: “O diário de Antônio Maria”. Rio: Civilização Brasileira, 2002, pp. 21-24.

Escrevendo estas notas, tenho que tomar um constante cuidado para não posar para elas. Seria péssimo fazer ou deixar de fazer alguma coisa, pensando no que escreveria mais tarde. O ideal seria registrar o que me aconteceu na véspera e, logo depois, esquecer que estou escrevendo um diário. Outro erro em que não quero cair: o da preocupação literária. Não quero escrever bonito. Não estou visando o público nem qualquer leitor isolado. Estou escrevendo, simplesmente.

Em sua crônica de rádio, na Revista da Semana, Fernando Lobo disse que eu, há algum tempo, demiti Caymmi da Tupi. Não é verdade. A demissão partiu de Carlos Rizzini e José Mauro, um dia após o meu afastamento da direção da rádio, em meados de 1948.

Fernando Lobo é um infeliz. Mas um mau infeliz. Alegra-me hoje estar livre de todo o bem que lhe queria.

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Minha filha toca piano. É um exercício de Bach. Creio no mistério de sua vida. Tenho que fazê-la forte, para arcar com a sua perigosa sensibilidade.

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Rubem Braga acaba de telefonar. Fala, com entusiasmo, de uma jovem e linda mulher. Está apaixonado por outra. Devo explicar que não é amante de nenhuma.

Contei-lhe que estive com Lana Turner e que não entendi uma só palavra do que ela me disse. Braga consolou-me:

— Não tem nada não, Marieta. O que americana diz não se escreve.

Rubem é, atualmente, a amizade que eu mais prezo. Numa declaração de bens citaria, entre as primeiras coisas: “Conto com a amizade de Rubem Braga”. Homem seco e difícil, trata-me com carinho comovente. Quando viajamos juntos, dá-me a melhor cama do quarto. Alega que eu sou gordo e preciso de dormir mais bem acomodado. Alego que ele é mais velho e escreve melhor. Mesmo assim, durmo na cama larga e macia. Quando está menos bêbedo que eu (o que é raro acontecer) preocupa-se comigo. Algumas vezes o vi parar de beber por minha causa. Isto me comove.

Admiro-o, além disso. E muito mais como ser humano que como escritor. Rubem é um homem de bom senso. Só aconselha bem. Quando desaprova, pobre de quem fizer o que ele desaprovou. Sabe querer e conseguir as coisas, no tempo exato. Já o vi pleitear situações ou posses difíceis. Não pede. Mostra-se com direitos líquidos. Queria ser assim. Não sei conseguir nada. Embrulho as palavras. Destruo-me, em vez de merecer.

Queria contar sempre com a amizade e a companhia desse querido amigo. Queria amá-lo e admirá-lo, à medida que o conhecesse cada vez mais. É difícil, porém, manter uma amizade. O homem é um animal estranho. E amizade, quando quebra, é como perna de cavalo: não conserta nunca mais.

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(É necessário que eu me convença cada vez mais de que não estou escrevendo para este ou aquele público; este ou aquele leitor. Estou escrevendo, simplesmente. Tenho, inclusive, a liberdade de parar aqui, sem ter patrão ou editor a quem prestar contas. Estou escrevendo porque não me seria possível deixar de fazê-lo. Este trabalho íntimo e verdadeiro. Talvez me desvie dos desgostos de escrever mal para O Globo e para a rádio. Ou melhor, de escrever sob contrato, com hora certa, sem assunto, sem vontade, sem emoção. Experimento, agora, uma nova sensação: de liberdade. É como se eu tivesse enriquecido e abandonado os empregos. Tenho agora onde escrever o que quiser e só quando quiser. Este caderno. Estas páginas sem leitor imediato. Continuarei escravo dos meus contratos e dos meus horários; das recomendações e censuras dos meus patrões; mas tenho como dizer tudo o que eu quero, quando bem quiser.

Escrever é um ato espontâneo. Por isso, grandemente íntimo.)

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Ainda o Braga:

Não sei de que maneira retribuo as provas de amizade que me dá. Mas não me sinto devedor. Devo fazer qualquer coisa por ele quase sempre. Nem que seja apenas em sentimento.

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Recomeço aqui as notas que interrompi ontem. Estou cansadíssimo. Dormi apenas três horas, das 7 às 10 da manhã. Escrevi dois programas de rádio e uma seção para O Globo. Fui ontem ao Copacabana (Golden Room). Muita gente. Os artistas não têm nada de especial. Van Heflin me parece o mais inteligente de todos. O pelado Yul Brynner não me causou nenhuma impressão melhor. Não tenho nada com isso, mas acho que ele é burro. Rosina Pagã apresentou-me a Ann Miller, com esta frase: “Este é o Voltaire brasileiro”.

Pobre Rosina.

Bebi um pouco, mas não cheguei a sentir nada de melhor. Gastei uns cinco mil cruzeiros! Conheci Monique, uma francesinha dos 20 anos. Uma beleza de moça. Disse que eu me parecia com um mouton. Alisou-me depois os cabelos. Acha que eu sou louco. Monique tem olhos grandes verdes e é morena. Estava em nossa mesa com o namorado – Leoni Machado. Muito bonita mesmo. Lembrou-me um pouco Martha Rocha. Estou cansado. Com sono. Ainda tenho que escrever uma crônica para a rádio e ir até lá, fazer um programa. Devo morrer cedo, de repente, por causa desses meus exageros. 

Agora não sou capaz de escrever qualquer coisa que me satisfaça. Sinto-me incapaz de mergulhar nos assuntos. Mal posso mencionar o que vi e dizer por onde andei. Vou ficar por aqui. Está anoitecendo e uma cigarra começa a cantar. Pela janela, é lindo o fim de tarde. Parecem-me novos o roxo e o amarelo das quaresmas e das acácias. As nuvens são espessas e baixas. As folhas estão imóveis. Um pôr de sol grave e estranho.

antonio-maria