26 ago 1959

Coração opresso, coração leve

Periódico
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Fonte: Benditas sejam as moças: as crônicas de Antônio Maria. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, pp. 63-64

Tão bonita à minha frente, acordando tanta coisa neste coração que já fez versos, mas angustiada. Suas mãos, que pousavam sobre a mesa, partindo palitos, rasgando prata de cigarro, fazendo bolinhas de miolo de pão. Cinco minutos depois, a toalha, em seu lugar, parecia um chãozinho de pombal. Olhei-lhe os olhos, sabe Deus com que sentimento! E ela talvez também tenha sabido, porque a linguagem de olho, embora só olho entenda, é a mais clara e sincera do corpo humano. 

Achava-me diante de mais um caso, claríssimo, de maladie d’amour, cuja sintomatologia está contida em obras de Lupicínio Rodrigues, Charles Aznavour, Herivelto Martins, Marguerite Monnot e Maísa. Essa enfermidade, em casos agudos, requer que o doente seja transportado, sem perda de tempo, a uma cartomante, sempre que possível, egípcia. E isso foi feito, imediatamente, em duas viagens, pois o corpo da paciente viajou de táxi, e a alma, um pouco antes, em maca do Serviço Nacional de Mal de Amor. Lá chegando (desculpem a frase feita), foram postas as cartas na mesa e, da intervenção, que durou vinte minutos, resultou um coração repleto de esperanças, com felicidade garantida para, ao menos, vinte e quatro horas deste agosto. O trabalho da cartomante foi impecável, porque, no primeiro lance, descobriu uma viagem para breve e, no exame do causador daquela crise, revelou que ele a ama, que ele a adora, que ele não a trocaria por nenhuma, mas, por fraqueza, além de não confessar, ainda judia do coração da moça.

Voltamos ao ponta de partida, dessa vez numa viagem só, porque após a cartomancioterapia, dispensa-se a maca do SNMA, podendo corpo e alma viajar no mesmo táxi. A meu lado, ia uma moça de coração leve, em silêncio, mas com um sorriso que devia ser, exatamente, o de São Francisco de Assis, ao relembrar as gracinhas dos seus passarinhos prediletos.

antonio-maria