Fonte: Pernoite: crônicas; Rio de Janeiro, Martins Fontes, 1989, pp. 1-3

O grande lugar onde o homem pode encontrar-se consigo mesmo, para um ajuste de contas, ainda é o banco da praça. Nunca seria possível num bar, um estado tão completo de autenticidade, porque seria preciso ajeitar o laço da gravata, enxugar o suor da testa, sorrir e cumprimentar. Aqui, não. É possível um máximo de espontaneidade e o momento, em si, já assume uma importância muito grande. Os ruídos se restringem ao vento ― alvoroçando a folhagem, de quando em quando ― aos automóveis que escorrem no asfalto e às poucas pessoas, que passam, em silêncio, ou que se sentam em outros bancos, tão preocupadas quanto nós em estar sozinhas. Ao homem torna-se, então, possível ver-se de uma maneira nítida, para louvar-se ou sofrer-se, perdoar-se, enfim, pelos erros que cometeu contra si e contra o próximo, levado, na grande maioria das vezes, por essa vontade irreprimível que cada um tem de experimentar-se. Fácil e rapidamente, chegaremos à conclusão de que a vida é, antes de tudo, uma coisa curta. Na maior parte dos casos, o que fizemos de mal foi feito a caminho do bem. O amor, o lucro, um pouco de paz foram coisas que perseguimos com intensa paixão e, quase sempre, o risco foi-nos indiferente. A alma se vitimou da sua própria coragem e o remorso é um castigo de foro íntimo que não precisa ser anunciado em voz alta. Da praia, vem um cheiro de maresia, e, nele, uma porção de vagas lembranças, todas elas insituáveis. Eu, por exemplo, por mais que ande, não me livro da minha meninice, que cheirava a sargaço do mar. 

Seria necessária uma viagem mais longa: e ver Paris, Roma, Londres? Útil, talvez, necessário, certamente que não. A Torre Eiffel, o Coliseu e a catedral de Westminster talvez me irritassem. O homem reage muito diante da celebração do cimento e da alvenaria. A estátua e o túmulo me dão, por exemplo, uma certa preguiça e isto se justifica no que já disseram muitas vezes: o melhor espetáculo para o homem ainda é o próprio homem. Aqui, por exemplo, neste banco de jardim, procuro ao redor de mim mesmo e encontro uma cena que agrada ver e sentir. Um moço veste camisa de meia marrom e está em pé na ponta da calçada. 

Uma moça veste azul e está sentada noutro banco, com um lenço cor-de-rosa na mão. Ele lhe dá um sorriso quase tão sórdido quanto o de Clark Gable e ela faz com os olhos que também está querendo. Imediatamente, sentam-se e se abraçam tanto que, de dois que foram, parecem um só. É-lhes indiferente a minha presença e os seus afetos são tantos que, descrevê-los, seria trair a cumplicidade que eles me ofereceram. Onde, diante do monumento erigido em memória de quem, podia eu ― um coitado ― encontrar espetáculo mais belo? As areias da Líbia, os Alpes, o Arco do Triunfo, a catedral de São Pedro, nada disso seria capaz de me tomar e me empolgar tanto. Nessa paz que se engalfinhou, a gente descobre que a humanidade não é tão covarde, tão desfibrada, quanto pretendem insinuar os governos através de suas secretarias de Segurança Pública e esta, por sua vez, através de seus tiras. Deixem o ser humano mais livre, não o ameacem, não lhe exibam tantos róis de deveres e ele será mais santo. 

Lembro-me de que, amanhã, tenho que escrever 14 laudas e pedir dois favores. Tudo isto é excessivo e injusto. Um cidadão como eu, já gordo e já careca, devia merecer, ao menos, uma véspera tranquila. Aqui no meu banco ― este começo de frase bem podia valer pela sua primeira e mais feliz significação ― estou entregue a uma porção de conjecturas inúteis, mas, até certo ponto, divertidas. Não custava nada que, amanhã, não houvesse hora para acordar, para entregar a tarefa, para vestir o terno completo: não existisse, enfim, relógio pra nada. Mas, não. Se eu fizer corpo mole, o telefone vai chamar. E tenho ― o que é degradante ― que aturar Tenório, em duas ou três primeiras páginas dos jornais, fazendo olhares, dizendo inutilidades e ― o que é pior ― vestindo aquele chambre de bolinhas, que merecia passar dois dias na lavanderia. Não é possível evitar os relógios, os telefones, as celebrações malfelizes. Se ao menos houvesse a esperança de evitar-me um pouco! 

As folhas mortas caíram das árvores e o vento as arrasta pela calçada. (Gostaria de segurá-las). Um guarda noturno, que só tem de desumano a farda e o "casse-tête”, vem andando devagar e, ao passar pela luz, mostra um rosto amargurado. Temo pelos dois namorados, que continuam em clinche, a dois bancos do meu. Mas, o guarda passa, sem dar a mínima importância. A miséria, quando transformada em ação permanente, vai, aos poucos, tornando os policiais menos arrogantes. Meu banco da praça, voltarei uma dessas noites, para conversar contigo.

antonio-maria