Fonte: Pernoite: crônicas; Rio de Janeiro, Martins Fontes, 1989, pp. 56-57

Muito luar, praia cheia de gente, Caymmi de branco, com os cabelos idem; este cronista, levado ao discurso, começa falando de si mesmo e, depois de outras coisas, diz assim: “Volto, hoje, em busca do grande silêncio das madrugadas no Terreiro de Jesus, da paz incomparável da igreja de Monte Serrat, onde a lua é madrinha da minha vida e as curvas femininas da praia, da praia começaram num gesto sequioso do mar”. O microfone enguiça, outras coisas são ditas, até que o microfone ressuscita na hora em que era dito: “Volto e, perante o luar, o povo e a praia de Itapuã, me penitencio de ter ido, quando a grande beleza era esta e só aqui seria possível a tão desejada reconciliação comigo mesmo. Ninguém se encante, quando o navio passar de noite, carregado de luzes, chamando para longe... ninguém se encante e ninguém vá; fique na Bahia para que, depois, num tardio e irremediável arrependimento, não venha deplorar o que fez, diante dos que ficaram”. 

Estas palavras, amigas e amigos da Bahia, não se devem limitar ao meu deslumbramento pela volta. São elas para meu companheiro e meu irmão, para meu poeta e meu cantor, o suave baiano Dorival Caymmi, cujo nome, num magnífico gesto dos pescadores, acaba de ser escrito nesta praça. Vós, que aqui viestes (os pescadores), sois dignos de todas as ternuras. Não viestes para ouvir os políticos e, deles, arrancar promessas. Não viestes para exibir vossa pobreza, na face anemiada de vossos filhos ou na humildade de vossas roupas. Viestes para ouvir e exaltar Dorival Caymmi, que nada promete, a não ser, enquanto vivo, dizer em canções, que a Bahia é bonita, que o seu povo é o suave, o crente, o bem-humorado, o heroico e festeiro povo de todas as doçuras baianas. Andai pelo mundo afora e, em toda parte, numa confissão de mulher ou de poeta, haverá sempre um grande desejo de conhecer o Bonfim, de contemplar o silêncio feiticeiro da Lagoa do Abaeté, de sentir a exuberante autenticidade do casario baiano, com o azulejo de suas fachadas e o jacarandá sisudo dos seus balcões. Uma vez, em Santiago do Chile, ao saber que eu era brasileiro, um chofer de táxi me disse: 

Yo queria ir a Bahia. 

Perguntei por quê, e ele me confessou: 

Para ver lo que tiene la baiana...  

Estas coisas acontecem no Chile e em Paris, em Nova Iorque como no Afeganistão, porque a música de Caymmi escreveu nos muros do mundo ― e mais ainda — no coração dos povos, a palavra Bahia! 

Foi aqui, em Itapuã, com Zezinho, Eduardo Peres, Fernando Pedreira e seu irmão Deraldo, que Caymmi, pela primeira vez, cantou o mar e os temporais, a vida e a morte dos homens do mar. Foi aqui, que os saveiros lhe ensinaram a ser irmão das viagens e dos riscos marinhos. Foi aqui, também, que o seu coração se encantou, pela primeira vez, por um olhar, um gesto e um suspiro de mulher. Eduardo Peres, Zezinho e Fernando Pedreira aqui estão, mais velhos e mais conquistados pela saudade. Deraldo não pôde vir. Por mais que quisesse, não conseguiu viver até esta noite, em que seu irmão, de violeiro da praia, passou a nome de praça, num desejo grato do povo. Então, em respeitoso instante, citamos a falta de Deraldo Caymmi. 

Meu querido e fraterno Dorival, em nome dos teus amigos, fazendo destas palavras e desta profunda emoção e dizer e o sentir de todos os que te querem bem, deixa que eu te aperte num abraço quente e demorado. Deixa que me orgulhe e me sinta mais gente pela ventura de contigo ter andado, de mãos dadas, por caminhos duros ou macios, em horas de riso ou de tristeza. Deixa que me louve por tê-lo perto, quando necessito de ti, de tua inigualável cordura, para repousar de todos os meus cansaços, assim como repousam os marinheiros cansados nas enseadas do silêncio e da tranquilidade. Quantas e quantas vezes, sem saber o que fazer de mim e de minha inquietação, fui buscar em tua palavra e em teu silêncio, a calma e o destemor para continuar vivo. 

Sabeis, senhores! Caymmi é o grande repousante, entre todos os nossos amigos! Vinde ver Itapuã, gente do norte e do sul! Trazei pelas vossas mãos as mulheres mais belas do mundo e aqui, nesta praça, parai para espiar a placa. Se alguém perguntar: de quem foi este nome? Foi guerreiro? Foi Presidente de Estado? Respondei: Não. É um poeta. É o cantor deste mar e destes coqueiros, deste vento e deste luar, destes pescadores e destes saveiros. É o agradecido cantor de Itapuã, praia de coqueiros, areia, morena e saudade. 

E, em mais um abraço, deixa que eu te diga, Dorival Caymmi: Vive o mais que puderes e, da saudade de tua terra, faze tua canção, cada vez mais bela, cada vez mais poderosa!

antonio-maria