Fonte: Pernoite: crônicas; Rio de Janeiro, Martins Fontes, 1989, pp. 96-98

A gente assiste ao cigarro se gastando, ouve os carrilhões da vizinhança, vê a chegada das noites e não se apercebe de que tudo isso é o tempo, andando. Os espelhos são de uma discrição fabulosa e não nos contam nada, de manhã, quando lhes perguntamos as coisas. Mas, quem sabe de nós é o retrato 3/4 da carteira de identidade. Toma o teu, espia bastante para ele, amigo, e verás que horas são, nos teus cabelos, na preguiça dos teus olhos e no corte vincado da tua boca. 

Aqui estou eu, diante de mim, em três fotografias coladas nos documentos que me dão trânsito livre pela vida afora: a carteira de identidade, a de chofer e o passaporte. 

― Como vais tu, rapazola do Recife, em março de 1940? Eras um herói e vivias de muitas esperanças. Mandaste fazer uns ternos, uma porção de camisas e inventaste de comprar um chapéu. Depois, recebeste uma passagem do Almirante Jaceguai, uns abraços no tombadilho e muitos adeuses no cais. Um daqueles lenços era o da tua namorada, que, um mês depois, já nem se lembrava de ti. Mas, o mundo era generoso e te daria outra. A bordo fizeram uma roda de moças e contaste umas histórias inventadas, que alcançaram muito sucesso. Houve quem não acreditasse nos teus anos e mostraste a carteira de identidade. Acharam que tu eras um prodígio e, de lá para cá, até hoje, não fizeste outra coisa, senão inventar histórias para engabelar e conquistar os outros. 

Agora, sabes dirigir automóvel, tens um bigode de carta de baralho (rei de espadas) e os teus olhos são penetrantes. Tua boca é de quem já provou beijos mais maduros. O que se vê do teu corpo — os ombros e o peito — é de gente que faz exercício, que cuida de si, pensando nos outros. Estavas na Bahia e gostavas de ver quem passava de navio. Vinha gente do Norte e do Sul, descia, saía contigo para olhar igrejas, praias e antiquários. Contavas uma porção de histórias e todos achavam muita graça. Ia contigo ao almoço na melhor comida da terra e ao banho de praia mais serena. Davas uma ordem e os atabaques de um candomblé começavam a bater, embora não fosse o tempo. Pai de Santo te levava ao peji e dava explicações para os teus convidados. Depois da função, ainda meio transidas, as ogãs vinham sorrir e te abraçar. Os teus amigos se encantavam com o teu prestígio. O teu show era tão completo e, dele, falavam tanto que, tempos depois, quem fosse passar em Salvador já te mandava telegrama, porque percorrer a cidade, sem ser pela tua mão, até nem tinha graça. E assim conheceste uma porção de gente — jornalistas, poetas, moças, políticos, artistas, viajantes de perfumarias e laboratórios. Na época das festas, estavas sempre com os capoeiristas e sambeiros, na Conceição da Praia, no Bonfim e na Ribeira. Na tarde de Iemanjá, ias, com os pescadores, e levavas uma braçada de rosas para Janaína. Não acreditavas em nada daquilo, mas, era uma festa de flores e canções, que te enchia de muita beleza. Além disso, os pescadores e mestres de saveiros gostavam de ti e não perdoariam a tua falta, a 2 de fevereiro. Esta fotografia foi tirada em 1946. Teu jeito, diante do que está na carteira de identidade, é de um homem que já viveu um pouco e ainda pensa em viver muito mais. 

Dá uma espiada, agora, no retrato do teu passaporte. É recente. Que é daquele meio sorriso de vitória, que é do bigode de tendências esquerdistas? E os ombros, e o peito de nadador? Onde deixaste os teus cabelos, que nunca foram belos, mas eram tantos, a ponto de te dar trabalho de manhã, com pente e escova? E os teus olhos? Estão cheios de tristeza. Os outros não notam, porque eles são pequenos e ninguém acredita que tristeza muita possa caber dentro deles. Mas, volta aos dois antigos retratos e vê o jeito e o brilho do teu olhar — vivo, mandão, crente e aventureiro. O de hoje nada mais faz que pedir. São olhos como as tuas canções, que essa gente canta e nelas se mistura, sem se lembrar de ti, sem se aperceber de que cada uma é história tua, sem ao menos te agradecer pelo que disseste. Não estás morto, eu sei, mas, feneceste, moço. A culpa não é do Almirante Jaceguai, que saiu contigo, ensinando-te a ser vagabundo. Mas é do carrilhão do vizinho gemendo os quartos de hora: é das tuas dores e das dores dos outros, que te comovem tanto. 

 Em São Paulo, na mesa escondida no fundo de um bar, viajaste através de ti mesmo, durante longos anos. Teu documento de identidade, tua carteira de motorista e teu passaporte foram portos de escala e neles pensaste estas coisas. Naquela hora, porém, apesar das dezenas de pessoas, que entravam, bebiam, falavam e saíam — ignorando-te — uma certeza te salvou: longe, devia haver alguém que estava pensando em ti. E, se não houvesse era só porque estavas meio bêbedo... e ninguém gosta de pensar nos bêbedos. 

antonio-maria