Fonte: Com vocês, Antônio Maria. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1994, pp. 83-84

Tinha que deixar aquela casa. Não sentia saudades. Era uma casa escura, com um cheiro doce e enjoado que nunca passou. Não tinha vista, a não ser a da janela que dava para o edifício ao lado. E só via as cozinhas. Quando anoitecia, toda aquela vizinhança começava, ao mesmo tempo, a fazer bife, e o ar ficava cheirando a cebola e alho. Ia-se embora, com alegria até, porque o outro apartamento tinha uma janela de onde era possível ver o mar, não todo, mas um pedacinho que, lá um dia, talvez lhe mostrasse um navio passando. Claro, arejado.

Mas era preciso levar suas poucas coisas. Uma calça, duas camisas, um rádio de cabeceira, talcos, dentifrícios, uma lavanda, quatro ou cinco toalhas. Cabia tudo numa mala só. Mas tinha a gaveta. Tinha que desocupar aquela gaveta. Cinco ou seis cartas guardadas ali. Uma vez uma visita quis abrir a gaveta e ele teve uma alucinação. Pulou de onde estava, gritou: não! Chegou a torcer-lhe o braço. Ele também não abria a gaveta há oito meses. Mas agora era preciso.

E fez o forte. Depois, resolveu ler, a começar pela primeira, pondo-as em ordem pelas datas. Quanto amor que o tempo virou mentira! Ela dizia tanto “te amo, te amo”... e contava que andara chorando na rua, que o fora esperar na estação, que a parenta já andava desconfiada de sua tristeza. No fundo de um envelope, o raminho de cabelo. Havia escurecido com o tempo, mas era um pedacinho de sua beleza e, de qualquer maneira, um pouco de presença a querer bem.

Era o que tinha ficado de uma moça. Não sabia se boa ou má. Uma moça a quem amara e de quem recebera algum pouco de carinho falado, escrito e perpetrado. Mas uma moça que depois duvidara de sua verdade, do seu silêncio e dos seus merecimentos. Por isso, ela o magoara muito. A única mulher que o magoara em toda a sua vida. Pensou em si mesmo e se achou uma pessoa inutilmente direita.

Sem saber para que, colocou as cartas no bolso da mala e saiu com a mudança pelo corredor do prédio. Podia ter riscado um fósforo naquilo tudo. Podia mandar de volta, com um bilhete falsamente frio e cordial. Mas qualquer das duas providências teria sido tendenciosa. E foi andando com sua mudança para a casa nova, que tinha uma janela de onde avistaria um navio passando.

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