Fonte: Diário Carioca, de 21/03/1963.

É dessas mulheres que, num lotação, pedindo licença para passar, a gente sai da frente, sem tirar a cara do jornal. Mais uma americana grande, de ombros chapados e braços compridos, em que apostamos, sem risco de perder, numa briga de socos, com Tiago de Melo, Viriato Corrêa ou Raimundo Magalhães Junior. Falando com ela, bebendo em sua varanda, aquele lívido uísque irlandês, fica-se, porém, a noite inteira, cada vez mais preso às suas opiniões travadas de sotaque e aos seus feios encantos. A roupa que veste é mais uma concessão à moral de vestir, para não escandalizar o próximo, do que pano de cobrir e enfeitar. Sua vida é o romance que está sendo escrito, embora, em volta, aconteçam o apartamento de peças imensas e vazias, a filha bonita, a soda, o gelo, o rádio remendado com botões de pijama, a cabeça de mármore cochilando na varanda e [Jayme] Ovalle — que sabe o segredo de todas as coisas, mas que, sendo assunto, não será citado (para não ser gasto) em todo o resto desta nota. Virginia Peckham pintou esses quadros da parede. Cada um é um livro seu e aquele, o da casa que é um rosto vermelho de gente louca, eu gostaria de levar comigo, para nele encontrar os meus pontos de referência, nas horas de perdição. Virginia está sentada na mesa, fumando um cigarro do mesmo nome, dizendo coisas. São as verdades mais cruas, menos gentis, com um exato conhecimento de tudo aquilo e de todos aqueles que estão em derredor, vivendo, escrevendo e falando. Essa mulher não mente, nem erra. O que me diz de mim é aquilo que eu, infelizmente, sou, embora sem gostar. O que diz dos outros, também, embora, se eles estivessem presentes, a convidassem para brigar na rua. Gosto de ouvir uma mulher assim, rara, autêntica, sem cheiro de extrato, sem a mínima tentação de assistir ao show do Casablanca.

Sinto-me conquistado pelas 400 páginas datilografadas do seu livro e, se o meu inglês fosse além do I have a book, começaria a lê-lo, agora, para conhecer melhor Virginia Peckham, casada, natural dos Estados Unidos, feia, encantadora, mãe, romancista, gente, pintora, católica, escultora, mulher para qualquer empreitada. Desço, ganho a rua, os bares passam por mim e, em nenhum deles, Virginia está fumando de piteira. 

antonio-maria