Fonte:  coluna "Jornal de Antônio Maria", Última Hora,  de 2/03/1961.

Aqui é a minha casa. Daqui não devo sair para nada e para ninguém, se é verdade que, até o fim de vida, não quero alegria nenhuma que possa passar. Aqui, devo ficar, de portas fechadas, de coração fechado.

O mendigo de Chagall, meu único companheiro, usa um paletó roxo, que lhe passa dos joelhos. Seu rosto e suas mãos são verdes. É um homem estranho, portanto. Mas, pelo simples fato de eu usar paletós comuns e ter mãos comuns, não devo ir à rua viver ou buscar felicidades comuns... que passam. Poder-se-á dizer, por exemplo, que o mendigo de Chagall está morto. E quem me garante que, agora, exatamente agora, eu esteja vivo? Os jornais não deram, os amigos não mandaram flores, mas é bem possível que eu esteja morto, porque, como os mortos eu desconfio que não preciso de mais ninguém.

Sair de casa é muito perigoso. Sempre o foi. Basta lembrar que os jovens e as pessoas felizes morrem na rua. Se ficassem em casa, envelheceriam felizes, lentamente.

Devo ficar em casa e não aceitar coisa alguma. “Não, muito obrigado” ― devo dizer sempre, a tudo e a todos. Ninguém, até hoje, se arrependeu de nenhuma vez em que disse “não, muito obrigado”.

Aqui é minha casa, onde as cortinas são feias e os livros estão desarrumados. Aliás, nela, nada é muito bonito e tudo está desarrumado. Mas, aqui, ninguém me fará nada; nem farei nada a ninguém. Há o constante “empate honroso”, de que tanto falam os speakers esportivos. E este empate é confortável, porque a vida é muito forte ― tanto quanto o Real Madrid.

― Telefonista, se me telefonarem, diga que eu não estou. Ou melhor, que eu nunca estive, realmente. Faça uma voz muito cínica, diga que nunca ouviu falar em mim e estranhe que estejam procurando uma pessoa que nunca houve.

Na parede, o mendigo de Chagall, na sua feliz irrealidade, toca um violino sem som. Comovente, como um boneco, e estranho como um homem.

― Telefonista, última forma. Se me telefonarem e se for o alferes Joaquim José de Silva Xavier, diga que estou, porque com ele ainda devo falar duas ou três coisas, antes de nova resolução.

O homem é, a um só tempo, fraco e forte e, por isto mesmo, depois de certa idade e de certas cicatrizes, deve ficar em casa, onde se pode ser, a um só tempo, sem risco de vida ou de desencantos, fraco e forte.

antonio-maria