Fonte: coluna "Jornal de Antônio Maria",  O Jornal, de 19/03/1964..

Há algum tempo, num bar de varanda, perante a Ilha Rasa, perguntei a Nelson Rodrigues:

― Otto Lara existe?

Era uma tarde sombria, chovia espessamente e a chuva eriçava o mar. Um navio novo, do Lloyd, passava quase roçando o Arpoador. a caminho de Cabedelo. Na rua, mulheres de vestido molhados, que se lhes colavam às mossas reentrâncias, caminhavam, a passos rápidos e miúdos, resmungando palavrões. Iam às aulas de inglês. 

Nelson Rodrigues comia peixe frito (no Mazola), meio debruçado sobre o prato. Fitava o olho disponível do peixe. Seu olhar (de Nelson) era o olhar de um obsedado. Sabia eu o quão difícil seria, para ele, responder-me. Mas, insisti na pergunta, prevendo que poderia ouvir uma resposta Zen-Budista, à maneira de quando, ao Mestre, se pergunta se Buda existe. Nem me assustaria se Rodrigues, o Joshu do Ocidente, me respondesse com outra indagação:

 ― "Já tomaste a refeição matinal?"

Nessa altura, chegaram outros companheiros, e um deles era o Haroldo Holanda, que fala pelos cotovelos. O outro, embora sem óculo, era o Pedro Gomes que, sacando um livro de cheques do Banco Nacional de Minas Gerais, humilhou-nos a todos. Chegou, também, o Armando Nogueira, chophytômano incurável, que distribuiu bolinhas de "Chophytol" com os presentes. Então voltei a perguntar, com o testemunho de todos:

― Nelson, eu suplico: Otto Lara existe?

Foi quando Nelson, erguendo a cabeça, respondeu, apenas:

 ― Tu o verás, com os teus olhos e teus dedos lhe tocarão o espírito.

Não sei quanto passou, mas, cerca de 530 dólares depois, eis que Nelson chega à porta da TV Rio (era noite), em companhia de um homem, cujos olhos escondiam invisíveis serpentes. Sua palavra continha uma autoridade nova e branda, quando nos disse: "Salve ele!" Vestia um traje inconsutil e cheirava a antigos ofícios religiosos. Meus olhos começaram a doer, como os olhos de quem viu uma aranha, nos romances de Clarice Lispector. Então, Nelson rugiu vitorioso:

 ― É esse o Otto Lara!

Não mentira, o dramaturgo. O estranho homem luminoso começou, de repente, a dizer coisas tão sábias que, se por ali passasse um agente do DOPS, seríamos todos presos e recolhidos à Invernada. A própria Sandra Cavalcanti, cuja virilidade espiritual está inserta (com "s") na Enciclopédia Britânica, sentir-se-ia uma mera Brigitte Bardot.

Ah, leitor, você não sabe o que é conhecer, em carne e osso, um personagem de ficção. Fui tomado e sacudido por imenso abalo, como se ali chegasse o comissário Maigret. É fabuloso isto de haver personagens de ficção que são pessoas e pessoas, que são personagens de ficção. Mario Cabral, por exemplo, é ficção. Engana-se quem pensa que já o viu.

E aqui estou eu, leitor amigo, após ver a face de Otto Lara Resende. Tudo mudou, de repente, dentro de mim. Tanto, que deixei de cumprimentar por 72 horas, o cronista e TV-Man, Carlos Alberto, o rei da imagem.

antonio-maria