Fortaleza de Nossa Senhora d’Assunção

 

Fonte:  Pernoite.  Rio de Janeiro, Martins Fontes, 1989, pp. 42-44.

Minha amiga, seguindo o caminho do seu guia, seria transferida para Fortaleza e vem saber o que eu acho da cidade. Lá, passamos todo o ano de 1944, um comecinho de 45 e teríamos ficado para o resto da vida, se não fosse o telegrama western, que dizia: “siga Bahia”. Mas, Fortaleza e sua gente são mais ou menos assim: a rua principal chama-se Guilherme Rocha, onde o principal hotel (Excelsior), há quase 10 anos, já era uma moradia insuportável. De algumas janelas, vê-se a Praça do Ferreira, com os seus bancos, onde sentam homens graves, lendo O Povo (vespertino de propriedade do senhor Paulo Sarasale), conversando sobre seca e política. Em toda a volta, estacionam automóveis de aluguel — sempre muito novos e, de preferência, Buicks — e seus motoristas organizam grupos para falar de futebol e dar vaias nas pessoas que se vistam ou que caminham de maneira estranha. Os melhores recantos residenciais são: Aldeota (bairro de casas modernas), a praia de Iracema — se o mar ainda não a engoliu por inteiro — e todo o caminho do Benfica, onde o casario é mais sisudo e o silêncio da noite ajuda uma grande paz para quem foi dormir em estado de graça. A cidade é toda quadriculada e as ruas, que são compridíssimas, dão a entender que foram traçadas com uma régua.

HÁBITOS — O cearense acorda cedo e nunca dorme depois das 11 horas, com a exceção do dr. Bié e dos amigos que o cercam. Quando o verão aperta um pouco, depois do jantar, os casais costumam passear nas calçadas (isto vi muito na rua Joaquim Magalhães) ela de peignoir e ele de pijama. Se chove, o distinto é vestir um calção ou desvestir-se completamente e ir tomar a chuva nas costas, aos gritos de alegria, com uma cachacinha antes e outra depois. As famílias se visitam muito, quase sempre após o jantar e, com as cadeiras na calçada, ficam horas e horas adivinhando invernos.

DIVERSÕES – Veem-se duas fitas por semana, no cinema Diogo, em sete soirées, sete matinês e em uma matinal, que acontece aos domingos, às 10 horas. Além disso, tendo coragem, o cidadão poderá comparecer a uma das sessões-colosso, com 11 filmes diferentes, no velho cinema Majestic. A dança é um divertimento semanal, que pode ser praticado no Ideal Clube, no Iracema e, agora, se não estou enganado, no Náutico e no Maguari. Os domingos eram enormes e, de manhã, a praia ficava cheia (de homens, na maioria, porque mulher de maiô provocava muito diz-que-diz. Um par de coxas de fora queria dizer que a mulher era doida, carioca ou tinha passado muito tempo nos Estados Unidos...) mas, dizíamos, a praia ficava repleta e o mar exuberante em suas marés, de vez em quando matava um. O futebol local era jogado em um campo só — Estádio Getúlio Vargas — e os grandes quadros foram: Maguari, Fortaleza e Ferroviário. A diversão mais barata e, por isso, mais frequentada, era o passeio domingueiro da rua Guilherme Rocha, que fica cheia, de ponta a ponta, entre 7 e 9 horas da noite.

COMIDAS E BEBIDAS — O prato regional cearense, a comida que realmente se oferece, com orgulho e prazer, é a panelada, feita com as vísceras do boi e acompanhada com um pirão fabuloso, que toma o gosto de toda a imensa mistura de tripas, fígado, sangue, etc. Depois de uma dessas temerárias aventuras da fome, se o cidadão beber um copo d’água gelada, é obrigado a dormir, esteja onde estiver, e dormir de rede, como aconselham a ciência e o bom senso. Fazem-se também, ensopado e sopas de peixe e camarão, mas, por serem considerados pratos leves, são servidos como complementos da panelada. Para esfriar o corpo, bebem-se cajuínas, refresco de pega-pinto e carapinhadas (sorvete batido em ponto grosso). De um modo geral, não há um cearense que não goste de cerveja e aguardente, com um bom tira-gosto, no caso: uma pata de caranguejo, frita no azeite e coberta de ovo. As águas têm nome. Chama-se: do Acarape (ruim de gosto), da Pirocaia, da Floresta e de Zuca Acioly.

AS GRANDES FIGURAS — Chegando a Fortaleza, é necessário querer bem ao prefeito Paulo Cabral, a Orlando Mota, Otacílio Colares, Girão Barroso, Artur Eduardo Benevides, Eduardo Campos e Aluísio Medeiros, poetas, jornalistas e pais de família. É mais do que necessário conhecer e amar uma senhora, que se chama Glorinha Pestana, parteira que, até 1944, havia ajudado cerca de 3.000 cearenses a nascer, inclusive os Quatro Ases e Um Coringa. Andava de charrete, de porta em porta, visitando suas clientes — a maioria gente que não podia pagar — sem horas certas para comer e dormir. Nenhuma vida, até hoje, entre as que eu tenho tido notícia, foi mais dada ao próximo, foi mais entregue à agonia e ao sofrimento do próximo, sem espera de pagas, sem outro interesse que não fosse o de ajudar. Lembro-me de sua casa, na Aldeota, onde guardava, carinhosamente, a saudade de um filho morto, cuja repetida memória estava em cada canto da sala, em cada quadro da parede e naquele céu de um azul infinito, onde, numa manhã, seu avião passou pela última vez.

De um jeito saudoso, quero bem a Fortaleza, a loura desposada do sol!

antonio-maria