Fonte:  Pernoite.  Rio de Janeiro, Martins Fontes, 1989, pp. 19-20.

É com imensa saudade de coisas e pessoas, que vamos falar da “galinha do Manoel”, a melhor comida de toda São Salvador. Até hoje, ninguém pôde fazer uma ideia de como aquelas maravilhas são preparadas e quem cometeu a ingenuidade de pedir receitas, voltou ignorando-a mais do que nunca, tão hábil é o despistamento do proprietário desse bar triste, onde nada é especialmente romântico, nada foi projetado, mas onde aconteceu tanta coisa da Bahia. Vem uma travessa imensa e são seis ou oito galinhas, nadando em molho gordo e escuro. A padaria ao lado, cúmplice desse misterioso assado, mandou o pão estalante e quentinho que, daqui a pouco, estará enxugando a graxa gostosa de um prato que precisa ser batizado. Com Odorico Tavares, num domingo de não fazer nada, resolvemos chamá-la de “Galinha ao Mobiloil 40” e foi assim que a apresentamos a Aníbal Machado, Rubem Braga e à moça Tônia Carrero, que vinham da Europa e ficaram conosco (Anízio Teixeira também estava) durante dois dias, enquanto a estiva, preguiçosa e politizada, prendia o Poconé no cais. Se Deus ainda me quiser na Bahia, nem que seja por umas horas, eu quero ir buscar uma porção de saudades naquele canto da Barra. Quero, também, pagar os 300 mil réis que eu devo ao Manoel — única fatura baiana que não liquidei, quando vim de lá, em abril de 48. Se alguém está de viagem marcada para esses dias, em Salvador, encontrará duas festas — a da Aleluia e a do Espírito Santo, no domingo de Pentecostes. De passagem pela Barra, será um crime, perder a “galinha do Manoel”, feita sem dendê, sem pimenta, sem nada da tradicional comida afro-baiana, mas, boiando naquele molho, cuja receita ninguém obterá jamais. A rua e o número eu nem me lembro. Mas, fica ali defronte do mar, perto do farol, atrás do edifício Oceania, quase na esquina onde se cruzam e dobram os bondes de Barra e Barra Avenida. É só perguntar, que todo mundo ensina.

Nenhuma cidade do mundo tem tanta festa de rua. E todas elas pertencem ao povo, à gente mais tipicamente baiana, a ponto de manter sempre como espectador: jornalista, gente de dinheiro, poeta ou turista que, nelas, queiram tomar parte. É necessário ser pobre, baiano e, se possível, negro, para conquistar o posto de personagem numa procissão do Bom Jesus dos Navegantes ou na imensa noite campal da Senhora Sant’ana, no Rio Vermelho. Contente-se em ver os outros — e já será uma graça — se lhe vier a felicidade de acompanhar, de janeiro a janeiro, as festas de rua da Bahia. Farte-se do espetáculo dos capoeiristas das rodas sambeiras, dos reisados. Abuse daquelas generosas melancias de Conquista e não se dê ao luxo de evitar que o caldo, escorrendo, lhe molhe o peito e camisa. Mas, não pense em ser mais que um mero espectador, porque a festa de Iansã (Santa Bárbara), na Baixa do Sapateiro, é dos pais de santo, das “baianas”, dos negros do cais e da Praça Cairu. A Conceição da Praia tem muito o que olhar. São centenas de barracas, em volta do Mercado Modelo, com os nomes mais líricos do mundo, vendendo comida de azeite. São tabuleiros enormes de abacaxis, melancias, pinhas e umbus. É a zoada dos berimbaus e dos chocalhos, o canto do tirador, enquanto os capoeiristas fazem “letra” no chão. O cheiro da cachaça, no suor e no hálito dos sambeiros, no vento e na cantiga da roda de samba. A Igreja, bonita que só ela, toda iluminada, onde se reza a novena para louvar Nossa Senhora da Conceição ― louvar, somente, porque o povo está feliz e não perde nada.

Gente pacata, a da Bahia. A incomparável doçura do povo rende os nove dias da Conceição da Praia, sem uma cena de sangue, sem uma briga de sopapo. Discutir discutem, porque quem é baiano tem que bater boca a vida inteira. Mas, nada de estragar a roupa e a pele do outro. No Recife, em festas mais humildes (só de barraquinhas de prendas e carrosséis), a confusão era tanta e depois de certa hora, exército, polícia e povo se entendiam tão pouco, que o jeito era o tiroteio. Feliz de quem pode estar na Bahia, a 8 de dezembro, e assistir a uma Conceição da Praia. Noite e dia, o zambumba comendo, o povo cantando, dançando e, como anotou o samba de Caymmi: “o sol está queimando, mas ninguém dá fé”.

Em janeiro é a festa do Bonfim. Gente, comida e alegria são as mesmas. O lugar, porém, é mais bonito e o ritual tem aquela nota aguda e chocante da lavagem da igreja, quando o povo canta e dança no templo, derramando extrato, loção e água no mosaico. O arcebispo ― hoje, cardeal — muitas vezes já conseguiu proibir essa cerimônia, apontando-a como profanação à casa de Deus. Mas, são tantos os protestos, que se vê na obrigação de ceder sempre. As festas de rua da Bahia são uma longa história a contar.

antonio-maria