Fonte: Febeapá, Companhia das Letras, 2015, p. 416.

João José, de batismo. Nome todo: João José de Sousa. Nascido no estado da Guanabara, no bairro do Encantado. Atualmente conta 22 anos; é um rapaz honesto, de bom caráter e que sempre ajudou a família. O pai morreu quando ele ainda era menino, e, por isso, desde cedo aprendeu a trabalhar para ajudar a mãe e duas irmãs menores. Vendeu pastel na estação do Encantado, foi boy de escritório, contínuo de banco – tudo na época em que fazia o curso ginasial de noite.

Sempre foi um rapazinho esperto e logo percebeu que era preciso estudar para ser alguma coisa na vida. Mas nunca teve ilusões: era preciso trabalhar e estudar ao mesmo tempo. A família era unida e todos se ajudavam mutuamente. A irmã mais velha está noiva de um colega seu, que também é bom rapaz. Em suma: para João José a vida era dura, mas não era intolerável. Era um bom aluno de farmácia, um dos mais aplicados da turma, e ia se virando para pagar as anuidades, os livros, tudo que precisava, enfim, com o soldo da Polícia Militar. Bom soldado, também. Antes tinha sido um bom atleta e não foi difícil passar nos exames para a PM. Lá, ao menos, comida de graça, tinha farda de graça e ainda o soldo.

No dia em que foi mais sangrenta a luta entre estudantes e polícia, estava de folga no quartel. Nem soube de nada. Aproveitara o dia para repassar a matéria de química. A faculdade estava fechada, todos em greve, uma lástima. João José se dividia em seus afazeres com um zelo raro. Estudou até tarde e acordou tarde, também.

Foi a mana mais moça que lhe invadiu o quarto com um café cheiroso e um sorriso fraternal, chamando-o vagabundo, dizendo que aquilo não era hora para pobre estar na cama. Levantou-se fazendo cara de bandidão e avançou para a menina, como se fosse triturá-la por tê-lo despertado. A irmã colocou o café sobre uma mesinha tosca e deu um gritinho. Ele a alcançou e pôs-se a fazer-lhe cócegas, enquanto a chamava de bruxa. Ela conseguiu desvencilhar-se e saiu rindo para o corredor, gritando que “João José está maluco! João José está maluco!”.

Ainda não estava.

Depois do banho foi beijar a mãe na cozinha e viu o jornal, num canto. Apanhou e pôs-se a ler. Logo no cabeçalho dos noticiários percebeu que seu plano de ir até a faculdade saber das novidades e depois se apresentar no quartel (ia dar plantão) era inexequível. A mãe disse-lhe qualquer coisa que ele não percebeu o que era, porque mergulhou na leitura e foi quase inconscientemente que voltou ao quarto, sentou-se na beira da cama e ficou lendo.

Leu tudo de um fôlego, às vezes sem acreditar no que lia, mas tendo que continuar a leitura, tal era a sua curiosidade, tal era a sua estupefação. João José – homem honesto e correto –, depois de ler tudo, olhou para as fotografias, reconheceu policiais, reconheceu vários colegas de faculdade. Começou a ler de novo, correndo a lista de presos, a lista de feridos.

Já não sabia mais de si mesmo; não sabia se tinha sido direito dormir o sono que, na noite anterior, seu organismo pedia. Se ao menos soubesse antes! Claro que não iria dormir, mas onde teria se apresentado? Ao grupo de colegas que o havia procurado, na certa, e que só não o encontrara porque não tinha telefone e morava num subúrbio... ou teria ido para o quartel? Lá, certamente, todos sabiam com antecedência que o pau ia comer e aguardavam sua apresentação. Ele não fora e nem dera satisfação. Muitos companheiros deviam ter saído para o centro das hostilidades pensando que talvez o encontrassem do outro lado, atirando pedras, gritando suas reivindicações.

Como estudante, sabia que o protesto era justo. Tinha acompanhado assembleias, visto como seus colegas insistiram para ser ouvidos serenamente. Como policial, seu dever era cumprir ordens. Correu os olhos pela lista de presos: o Alfredo, o Carlos, a Luísa — moça tão bonita, como estariam tratando-a os agentes do Dops? De repente viu a notícia da morte do PM Nélson. Puxa, o Nélson! Leu trêmulo: no alto dos edifícios o povo tentou ajudar os estudantes massacrados e algo caíra sobre o Nélson, seu companheiro Nélson, matando-o.

A mãe passou pelo corredor e viu-o nu da cintura para cima, mas com as calças que costumava usar quando ia à faculdade:

– Vai à faculdade, meu filho? – e nem estranhou de não ouvir resposta. Estava muito ocupada com o almoço para notar que o filho estava completamente transformado.

O que devia ter feito, meu Deus! Ficado do lado dos colegas e enfrentar a fúria policial? Juntar-se aos companheiros do quartel, na repressão às manifestações? Ele teria batido? Ele teria apanhado? A ordem de um lado era não ter medo de apanhar; a ordem do outro era não ter pena de bater.

Por cima das calças vestiu o dólmã de PM. Quando a irmã entrou no quarto para arrumar, foi que viu. Saiu correndo, chorando, gritando: "João José está louco! Está batendo de sabre nele mesmo...".

O sangue jorrava do nariz! Da testa!

Não ter medo de apanhar! Não ter pena de bater!

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