Fonte: Vento vadio: as crônicas de Antônio Maria, Todavia, 2021, pp. 227-229. Publicada, originalmente, na Revista da Semana, de 03/07/1954.

Ari Barroso acabava de dizer que não beberia jamais e pedia que o garçom lhe trouxesse água gelada, em vez de uísque. Era uma resolução tomada há muito mais de oito dias e mantida com imensa energia. Convidei-o, então, para jantar na Cantina do Palepale, na Barra do Tibagi, em São Paulo. Gostaria de, além de colocá-lo à frente do mais gostoso cabrito ensopado de todo o mundo, mostrar o que é uma verdadeira casa de comida italiana. Palepale, aos 60 anos, é um sobrevivente de dois infartos do miocárdio. Mas não está espichado numa cama, à espera da morte. Está andando para lá e para cá, aos gritos, dando vivas aos fregueses, dizendo muito o nome de cada um. Numa mesa ao fundo, Leônidas da Silva come talharim, ao lado de uma verde salada de rúcula. Noutras mesas, mulheres bonitas de São Paulo vieram para esse canto da Barra Funda (oTibagi) e não fazem questão de engordar um pouco ao tempero palepaleano. Não há garçom. As mesas são servidas pelo genro (Neco) e pelas filhas do dono da casa. Também não há mau humor entre os que servem e os que comem. O alto-falante toca, apenas, duas músicas: “Tropo tarde” e “Luna rosa”, mas toca em macio, dando a impressão de que essas duas canções bastam ao mundo dos sentimentalistas.

Estamos sentados, com a alegria de ficarmos juntos, Araci, Paulo Soledade, Ari Barroso. Leônidas grita de lá que o Flamengo está acabado. Ari Barroso protesta, de pé, levantando o seu dedo de profeta. Palepale trouxe linguiça calabresa bem fritinha e Ari, ao morder o primeiro pedaço, me olha como um menino que quer pedir alguma coisa. Entendo-o e mando vir o irresistível vinho Meleto das prateleiras do Palepale. É um vinho poderoso, esse vinho da Itália. Ninguém, até hoje, conseguiu bebê-lo sem sofreguidão. E, ao terceiro copo, já Ari Barroso está dizendo o seu clássico discurso de alegria: “Eu sou aquele que saí do bosque e vim tocando a minha flauta amena! Ó tu, que tens a tranquibérnia da vida, toda sarapintada azul! Não me venhas de sanaclitias sepebelzia til-til”. Os pratos caem na mesa, como se fossem castigos. Galinha à passarinho, cabritos vários, talharins, linguiças, provolone do melhor e o Meleto, nobre de Firenze cumpliciando tudo, com o seu gosto de uvas privilegiadas. Rimos todos. Araci está feliz, como há muito tempo não a via tão feliz. Paulo Soledade conta histórias de suas idas a Paris. E Ari, ao décimo copo, pergunta se é, de fato, digno da medalha de Mérito Nacional. Claro que sim. É preciso uma medalha para cada peito, uma gratidão pública para cada vida. Somos quatro! “Garçom, por favor, quatro medalhas do Mérito Nacional!” E Leônidas da Silva diz de lá que ainda sabe jogar futebol. Com uma bola no pé, sabe para onde mandar. Mas cadê força para correr atrás dela? E revela: "Essas bolas de hoje correm muito”. Ali estava um ídolo da minha meninice, com o mesmo rosto de riso branco que eu tinha colado na tampa da caixa do meu time de botão. Vive bem. Ganha o suficiente para não comover os seus velhos admiradores. Tem 12 casas em Pinheiros. Leônidas da Silva teve a sorte de acabar o seu futebol em São Paulo e, mais ainda, no São Paulo Futebol Clube, grêmio de gente que não sabe abandonar os seus grandes defensores.

É uma hora da madrugada. A casa do Palepale está cheia outra vez. Aos poucos. Gaetaninhos crescidos – modelos de Alcântara Machado – foram entrando devagar. Vieram de boina ou boné e foram sentando. Nessa altura, pedíamos a nota par continuar a alegria que o Meleto nos dera. Mas não foi possível sair. Anunciaram uma sessão de cinema com um grande faroeste. Não acreditamos logo. Devia ser brincadeira. Mas, não. Todas as noites, à uma da madrugada. Palepale oferece fita de caubói aos moços da Barra do Tibagi. Faz frio. Os italianinhos cruzam as lapelas e esfregam as mãos. As luzes se apagam. Palepale grita que quem falar será posto na rua. E a sessão começa. Primeiro vem o tradicional comentário dos caçadores de patos-selvagens. Depois, então, começaram as aventuras de um mocinho, que se chamava Durango Kid. Ele se vestia todo de preto e o seu cavalo era branco. No mesmo instante, viramos crianças outra vez. Éramos crianças, gritando, batendo palmas, torcendo contra o soco e o revólver do bandido. Éramos crianças em tudo, menos no vinho que continuávamos bebendo pretextando duas fortes razões, além da alegria de estarmos juntos: o frio e o encontro com Leônidas da Silva. 

Saímos para continuar a noite de São Paulo. O pensamento me media e me pesava, e eu me sentia leve, fácil de conduzir, íntimo de mim mesmo – eu que já fora um estranho qualquer aos meus olhos de censura. O meu ser, escravo de lembranças antigas, a querer bem ao dia seguinte.

antonio-maria