Fonte: Júlia do Rio: crônicas da belle époque carioca. Organização de Anna Faedrich. Rio de Janeiro, Bazar do Tempo, 2024, pp.53-56. Publicada, originalmente, em O Paiz, coluna semanal "Dois dedos de prosa", de 2/02/1909.
Lendo o belo folhetim de Coelho Neto, na Notícia de 28 de janeiro passado sobre a individualidade complexa de Paulo Barreto, lembrei-me de uma conversa de poucos minutos, na qual, em termos muito menos brilhantes, mas igualmente sinceros, eu disse a esse escritor absolutamente o mesmo que o grande romancista brasileiro acaba de lhe afirmar na sua prosa diamantina.
Estávamos na casa Alves, eu assinava livros, encarrapitada no alto banco de uma escrivaninha comercial, Paulo Barreto interrompera a conversa com um dos chefes do estabelecimento para vir cumprimentar-me. Foi a propósito de uma das suas crônicas, publicada dias antes não sei em que jornal, e em que ele descrevia as antecâmaras dos nossos consultórios médicos, de um modo em que a ironia, a graça, maleabilidade do seu estilo moderno em nada prejudicava a psicologia perfeita dos indivíduos que nos apresentava; foi a propósito dessa página ligeira, escrita sobre o joelho, mas em que se sentia uma observação segura e bem dirigida, que lhe externei as esperanças que tinha e tenho de o ver empregar a sua atividade, o seu talento robusto, a graça do seu estilo cheio de fulgurações e de imprevistos, o seu conhecimento profundo da alma carioca, que ele tem sondado até ao âmago, em romances em que essa alma tome vulto definitivo e eterno.
— Sou jornalista e não penso em ser outra coisa — respondeu-me ele. — De resto, não tenho paciência para obras de meditação demorada.
Pouco importa que ele hoje diga isso, pensei eu, visto que as suas faculdades o levarão fatalmente a escrever um dia na condensação de um livro uno a história do nosso sentimento, a agitação dos nossos nervos, o clamor das nossas ideias. Só pode ser romancista perfeito o homem que, a par do talento e da susceptibilidade vibrátil, se tenha sentido em contato com todos os seres de que se compõe a sociedade em que ele coloque as suas personagens, e de cujo ambiente impregne as suas páginas. Esse conhecimento Paulo Barreto tem-no adquirido com as suas peregrinações, os seus inquéritos, os seus estudos a crayon, preparadores das grandes telas coloridas que hão de vir.
Acabo justamente de receber dois livros de Paulo Barreto: O momento literário — que ainda não folheei — e A alma encantadora das ruas — em que estou a mais de meio, deleitada pelas suas páginas impressionistas, movimentadas, ora trespassadas de ironia, ora pontuando ridículos, ora bafejadas por uma lufada de ideal e de poesia.
A rua é a melhor escola que pode ter um escritor de observação. Ela foi a primeira e melhor mestra de Carlos Dickens, romancista inglês, que saiu do repórter como um fruto sai da flor. Os tipos de encontro casual, por que passavam lojistas, policiais, solteironas, mendigos, cocheiros, os próprios animais e até mesmo os muros dos edifícios com os seus cartazes policromos ou com a sua nudez, serviram de tema e inspiração a esse espírito curioso, que à mordacidade de certos conceitos humorísticos com que descarna e caustica os ridículos sociais, sabe aplicar bálsamos e perdões refrigerantes, que as aliviam num sopro leve, de transição.
Ninguém desdenhe das descrições dos aspectos materiais.
Um ângulo de parede, uma torre de igreja, a amurada de uma ponte, o varal de uma carroça erguido para os ares sugerem muitas vezes ideias e pensamentos de mais pura filosofia do que todos os sofismas imagináveis.
A reputação formidável, universal do romancista inglês teve por base o seu livro — Sketches by Boz —, em que reproduzia através da sua apreciação original a fisionomia das pessoas e das coisas por que passava.
A alma encantadora das ruas espelha cristalinamente a nossa sociedade; não é um livro efêmero, de estação, feito para ser lido com um sorriso e esquecido logo após outra leitura. É um livro que na asa ligeira da sua fantasia, que passa flanando pelas calçadas, leva impressas muitas cismas que enternecem e muitas cenas que ficam...