13 out 1964

Do diário (sábado, 10-10-1964)

 
Fonte: O jornal de Antônio Maria. Rio de Janeiro, Saga, 1968, pp. 130-131

Os homens tristes, geralmente, fazem graça.
(Antia Marônio)

Já esperava. A continuação da chuva iria trazer uma porção de lembranças. As que envelhecem.

Chovia assim, quando fizemos a casa. Eu não tinha a menor ideia de como se fazia uma casa. Ensinaram-me.

Com um barbante, desenha-se no chão o formato da casa. Depois, na linha do barbante, cavam-se os alicerces, levantam-se as paredes. Depois é só fazer o telhado e cobrir o chão com lajotas. Caiam-se as paredes e pintam-se as janelas de azul. A casa fica linda e todas as pessoas se beijam. As mais íntimas, na boca. Então, faz-se a cerca de casuarina e plantam-se os coqueirinhos no derredor da casa. Compram-se os móveis, a geladeira, as roupas de cama e mesa, as louças, os talheres e as redes. Aí, habita-se a casa. Com as melhores intenções. Feito isto, a família se reúne e todos se olham, com os olhos em brasa.

As redes ficam no terraço, vazias. Os peixes pulam na água para divertir as crianças, crentes que elas ainda estão.

Continua chovendo. A cal das paredes escorre sobre os canteirinhos de marias-sem-vergonha. O azul das janelas esmaece. Quem passa ouve vozes, lá dentro. São fantasmas, cantando uma canção que não viveu:

Somente nós Nós dois, nosso amor e a vida...

Triste de quem tem memória. Envelhece antes do tempo. Chora sem ter de que (pobre chora à toa). Dramatiza tudo.

Continua chovendo. Uma chuva que se adensa nos corações e a eles lembra o que era para esquecer.

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Chovia igual a hoje, quando fomos ver a casa, onde viveu Van Gogh. Anvers-sur-l'Oise. O domingo cinzento. A praça. As mulheres passando para a missa. A caminho do cemitério, uma velha igreja, onde fomos fotografados, "sorrindo para a nossa objetiva". O cemitério e, lado a lado, Théo e Vicente. Algumas flores mortas. Além, o muro e o trigal, onde o artista se matou.

Voltamos à casa. O pequeno quarto onde Van Gogh dormia dava para um muro cinzento e sujo. A cadeira. Aquela cadeira, que ele pintou, tantas vezes.

Eu e Cícero Dias, Cícero, lendo um jornal, ria, sem parar, porque um casque-bleu tinha sido comido, via oral, por um africano. Levantei-me e pedi à patrone, que me vendesse três fotografias em cores. Ela começou a rir. Em meu triste francês, tinha lhe pedido três fotografias, "em cólera".

Voltamos a Paris, no anoitecer. Chovia igual a hoje e o porteiro do hotel me esperava com um telegrama. De amor ou de morte? De amor. Aquele amor de que se fez a casa, desde o barbante, que lhe desenhou o formato.

antonio-maria