25 abr 1953

Lembranças do Recife

 
Fonte: O jornal de Antônio Maria. Rio de Janeiro, Saga, 1968, pp. 26-28

Carta de amigo, dizendo que a gente nem se lembra dele; notícia de doença na família, telegrama de jornal, contando a morte do pastor presbiteriano Jerônimo Gueiros − tudo isto chegou num dia só e acendeu estas cinco lembranças do Recife:

PRIMEIRA − Íamos à missa das seis e meia, todos os domingos, no Colégio Marista. Quando comungávamos, tínhamos direito a várias xícaras de café, meio pão e manteiga Sabiá. Depois, vínhamos andando ao longo da rua Formosa para tomar conta do domingo, que nos oferecia os seguintes prazeres: Das nove às onze, jogo de botão, em disputa de um campeonato que nunca terminou. Ao meio-dia, violento almoço de feijoada, com porco assado. Às duas, pegar o bonde de Avenida Malaquias e assistir a mais um encontro entre Náutico e Esporte, acontecimento da maior importância na plana existência do Recife. Depois, voltávamos cansados, íamos ao Politeama − se sobrasse dinheirinho − e dormíamos de consciência tranquila, o longo sono dos que ainda não foram ao Vogue, ao vento do Capibaribe, fresco, sem umidade, macio, sem cheiro de Botafogo e Leblon. Quando voltávamos da missa, porém, na metade da rua Formosa, parávamos em frente à igreja do senhor Jerônimo Gueiros e, sem o mínimo respeito àquele homem inteligente, culto e virtuoso, gritávamos: "cala a boca, burro!" Os irmãos maristas eram muito rigorosos em relação ao nosso comportamento, na rua. Mas, achavam muito engraçado quando interrompíamos a prédica do pastor.

SEGUNDA − Os preparativos para as regatas da rua Aurora assanhavam todo o bairro da Boa Vista. Três dias antes começavam a armar as arquibancadas, em três lances, cada uma pintada de uma cor, para serem entregues, depois, aos torcedores do Barroso, do Náutico e do Esporte. O primeiro páreo era de estreantes e não despertava grande interesse. Mas, depois, a coisa esquentava e a vibração dava chilique nas mulheres, cólera nos homens, sangue quente, enfim, em toda a murada do rio. Os portugueses do Barroso chegavam em primeiro lugar, mas o que interessava era a luta entre o Náutico e o Esporte, na disputa da segunda colocação. Pelas calçadas, depois do último páreo, muita roupa de linho branco, sorvetes de maracujá e mangaba, grupos de oito moças, de braços dados ocupando a calçada toda, risos, sem-vergonhice sem pecado, encontro marcado para a primeira sessão do Parque, ao fim da qual começava a fadiga de todos nós e o desencanto por tudo o que não fosse: cama de longa, lençol até a cintura, janela aberta, brisa do rio, sonho sem o menor interesse para a psicanálise.

TERCEIRA − A Procissão do Enterro saía na sexta-feira santa. Lenta, acompanhada por uma orquestra de trombones de pistom, tubas e clarinetas, lá vinha, com os seus paramentos roxos, com as irmandades dos homens pálidos. A Paixão e a Morte de Cristo aconteciam em cada um dos nossos corações e culminava ali, no enterro do Salvador. Ficávamos na janela pedindo a Deus que o caixão não parasse em nossa porta. Diziam que, em frente à casa onde a procissão fizesse uma parada, morreria um. E era mesmo. Todo ano a procissão de enterro parava em frente à casa de minha avó... e, todo ano, morria gente.

QUARTA − Fomos velar o corpo de um parente distante. Depois de certa hora, deram-nos bolacha Maria, chá e foram descansar um pouco, deixando o corpo entregue à nossa guarda. Lá para as tantas, minha prima achou que devia mudar um dos quatro círios da volta do morto. No que fez força para colocar o círio novo, o castiçal cedeu, ela caiu, bateu com o pé no caixão e o querido defunto só se salvou do tombo, porque todos nós, num pulo de bicho, o seguramos no ar. Dali por diante, deu um nervosismo e começamos a rir, sem parar, muito alto, e, quanto mais nos esforçávamos para prender o riso, mais ríamos. No quarto a viúva acordou e, com a voz muito sofrida, gritou de lá: "Não chorem tanto, meus filhos. A alma de Augusto, a esta hora, está no céu"!

QUINTA − Quando eu fiz quinze anos, ganhei um relógio de pulso e cinco mil réis. Olhei os ponteiros, vi que era hora de fazer uma besteira e entrei no botequim. Estávamos veraneando em Boa Viagem e, quando era de tardinha, o pessoal da minha idade vinha, de banho tomado e roupa limpa, inventar mentira sobre as moças − namoros, bolinagens veladas, agrados sinistros, tudo mentira, tudo imaginação. No dia dos meus anos, em vez de conversar essas coisas, compramos uma garrafa de Bagaceira Pingo de Uva e eu, sozinho, para ganhar uma aposta de dois mil réis, bebi toda. Anoiteceu, me deixaram na praia, a maré cresceu e me levou. Quem deu por mim foi um negro chamado Paulo, que tinha ido molhar os pés na franja da onda. Não sabia onde eu morava, nem o nome de minha mãe. Saiu, andando comigo no ombro, perguntando a todo mundo e, aos poucos, mais de cem pessoas acompanhavam o menino bêbado, desacordado, que o mar ia levando. Quando acordei eram três da madrugada e minhas irmãs choravam ao pé da minha cama. Quando compreendi a gravidade daquele momento, comecei a chorar também − choramos em coro, cinco pessoas, até seis horas, sem dizer uma palavra, quando dormimos abraçados, com pecado e o sofrimento lavados pelas nossas lágrimas quentes.

antonio-maria