15 jul 1953

O menino do trem

 
Fonte: O jornal de Antônio Maria. Rio de Janeiro, Saga, 1968, pp. 32-33

A história é mais ou menos do gênero de outra, que contamos há dias, mas não aconteceu num lotação, nem foi aqui no Rio. Nós fazíamos uma viagem de quatro horas naquele saudoso trem de Great Western e, como a paisagem fosse somente o carnaval, desistimos de espiar pela janela. Em volta, as caras dos outros passageiros não tinham nada de novo, a não ser esparadrapo no nariz do condutor, que rendeu a longa história de uma espinha, que infeccionou, que deu febre e, se não fosse uma preciosa devoção por Nossa Senhora do Bom Despacho, o homenzinho teria passado desta para melhor, deixando mulher e filhos na mais pobre das orfandades. O homem gordo abriu um embrulho e tirou, do papel gorduroso, um queijo, que disse ter sido feito por sua mulher, com o leite de uma vaca muito mansa, chamada Aliança. O queijo, por melhor que fosse, não tivera a menor influência do nome e da mansidão da vaquinha. O barulho das rodas nos dormentes era o mesmo e o mesmo cheiro poeirento saía da palhinha das poltronas. Paramos em Barão de Suassuna, onde subiu uma senhora, com um filho num braço e uma sacola no outro. Fez um olhar de "chegue-se para lá" e sentou ao meu lado. O menino vinha brincando de comer um biscoito de maisena e sua tarefa me parecia um pouco difícil, porque a gengiva desdentada e cor-de-rosa mordia sem pressão, mais derretendo do que mesmo quebrando o biscoito. Viajamos, assim, por vários quilômetros, quando a senhora me pediu para segurar o seu filho, pois precisava ir não sei onde, fazer não sei o quê. Naturalmente que, hoje, não me prestaria àquele serviço de babá. Mas, naquela época, dizíamos os nãos muito raramente. Quando sentou em minhas pernas, o desinfeliz já deu um riso meio descarado. Depois, esfregou seu biscoito na minha boca. Em seguida tomou um ar muito grave e ficou de olhos parados. No mesmo instante, senti uma coisa morna a escorrer pela perna afora e entrar pelas minhas meias. Olhei sério para o desaforado desconhecido e ele, sem dar a menor prova de constrangimento, abriu um sorriso de gengiva, que foi de orelha a orelha. Nessa altura, a senhora a quem eu havia xingado em pensamento, voltou de sua tarefa e pediu o filho. Devolvi-o, sem dizer nada e ela disse muito obrigada, num meio sorriso. Ao tomá-lo de minhas mãos, apalpou-o, virou-o de cabeça para baixo, examinou-o de várias maneiras e, indignada, perguntou-me:

− Isto é coisa que o senhor faça no meu filho?

Tentei dizer uma porção de desculpas, gaguejei, fiz gestos vazios e não cheguei a explicar nada, porque a moça acrescentou:

− Vamos esquecer o que houve e viajar em silêncio.

antonio-maria