Fonte: Seja feliz e faça os outros felizes: as crõnicas de humor de Antônio Maria. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2005, pp. 13-15

Conhecido senhor, aqui domiciliado, escreve-me carta intimíssima onde, após a clássica declaração, "no senhor, a gente pode confiar", pede-me de todas as maneiras que não faça a mais leve menção (pelo jornal) à sua carta.

Está louco, meu prezado amigo? Eu sou exatamente aquela pessoa em quem não se pode confiar. Quando me contam uma história, se não pedem para empenhar a vida temporal de minha mãe, a primeira coisa que faço é escrevê-la no jornal. Se a história é boa, claro. Há leitores que me contam dezenas de casos exigindo, quase, que os publique, mas são tão bestas que guardo-os para sempre no recesso tumular da minha discrição.

Sua história, meu caro leitor José (vou chamá-lo assim), terá que ser contada.

É a história de um homem que por ser muito ciumento casou com uma mulher feia. Queria sossego. Queria uma mulher que quando ele telefonasse do escritório, o telefone nunca estivesse ocupado e não tocasse duas vezes. Logo em meio ao trinar do primeiro toque surgisse a voz da mulher, a dizer:

− Alô, meu bem.

Queria aquela mulher que, em público, não despertasse outro sentimento senão o do respeito. Aquela mulher que fosse capaz de atravessar a avenida Rio Branco, da praça Mauá ao Obelisco, no terceiro dia de carnaval, sem que ninguém lhe botasse a mão. Aquela mulher que à meia-noite, voltando de um velório, fosse assaltada por dois bandidos e estes lhe dissessem:

− Está se vendo que a senhora é uma pessoa direita. Pode ir.

E encontrou dona Mariana, cujas medidas de busto, cintura e quadris eram exatamente as mesmas: 78. Dona Mariana, de cujo nariz, disse o Pitanguy, após demorado exame:

− Se eu fosse a senhora, a não ser que ele gangrenasse, deixava assim.

O meu leitor, José, casou há dez anos e há cinco não toca na esposa, nem com uma flor. Não é que dona Mariana tenha ficado mais feia; mas sua saúde é tanta (nunca teve, ao menos, brotoejas), que José está absolutamente certo da sua imortalidade. Leva-a a comer nos restaurantes mais perigosos, dá-lhe ostras daquelas que já estão na fase rósea (ostra cor-de-rosa mata na hora) e no dia seguinte, quando lhe pergunta como está passando, a resposta não varia:

− Melhor do que nunca, meu amor.

Foi dona Mariana a única sobrevivente de um desastre de avião e uma das três senhoras que no ano passado escaparam de terrível incêndio ocorrido nas imediações da rua Álvaro Alvim. Tinha, dona Mariana, um bilhete para aquele circo que pegou fogo, em Niterói, mas dormiu, depois do almoço, e perdeu a hora. De desastres de ônibus, escapou de quatro − ilesa.

Agora, José me escreve para perguntar o que deve fazer. Mandá-la embora? Fugir de casa?

Não adianta, José. Se você mandá-la embora, ela não irá. Se você fugir, ela irá atrás. Vê se consegue incluí-la numa das "listas" da revolução. A do Flávio Cavalcanti, onde não existem apenas comunistas, mas alguns direitistas que não concordavam com Mme. Nhu. Dona Mariana será presa, mandada para um navio e nunca mais se saberá dela. Não vejo outra saída.

Você fez mal, José, quando se casou com uma mulher feia. Diz um escritor francês que nós, homens, devemos desposar mulheres muito bonitas, porque só assim, um dia, nos veremos livres delas.

Desculpe eu ter feito de sua carta um assunto. Mas não tinha outra crônica. Faça com que dona Mariana a leia e, nela, se encontre. Pode ser que dê uma coisa nela, um ímpeto de brio, e se convença de ir morar em casa dos pais. Ah, eu me tinha esquecido que Dona Mariana não tem pai, nem mãe! Então, aguenta, José.

antonio-maria