Adamastor e a mulher

 
Fonte: Seja feliz e faça os outros felizes: as crõnicas de humor de Antônio Maria. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2005, pp. 47-48

Adamastor é de opinião que não existe a mulher feia e, sim, uma mais bonita que a outra. Numa ilha, havendo duas mulheres, uma é sempre uma beleza. Se esta morrer, antes de ser enterrada, a outra fica linda. Todas, desde mocinhas, adoram o espelho. Ficam horas fazendo olhos, fazendo bocas, fazendo cinturas frente ao espelho. Observa Adamastor que, de vinte anos para cá, não há mais viúvas. A única que ele conhece é Martha Rocha. O único tipo de mulher que Adamastor evita: as trágicas. As que se atiram pela janela, de dez em dez minutos. Mesmo assim, vive-se com elas, desde que o apartamento seja térreo. Acha, Adamastor, que a mulher não deve tocar violão. Olga Praguer Coelho, se o ouvisse, não teria feito o que fez. Descobriu, Adamastor, que as de olhos grandes (não confundir com as de "olho grande") não são as bonitas. Sentem-se sempre na obrigação de ter olhos grandes, estáticos, com ares abonecados. As de olhos apertadinhos dão mais o que fazer. Adamastor chama atenção para a lascividade estrábica. Discute-se muito quais são as frígidas e as ardentes. Adamastor recomenda o teste da barata. Não acredita em mulher que não tem medo de barata. Crê, Adamastor, na mulher necessária. Aquela que os privilegiados têm apenas uma ou duas vezes na vida. A que nos rasga a camisa do corpo e da alma. Aquela que, pela sua mão, nossa mão alcança a fundura de todas as coisas fundas. Aquela para quem se vai, sem dizer aos amigos para onde se vai. A única de quem não se conta nada, na roda dos amigos.

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