Fonte: O jornal de Antônio Maria. Rio de Janeiro, Saga, 1968, pp. 38-39

Rosinha Desossée, me tire desse quarto de hotel e de todas as coisas que entram pela janela; me leve para longe das palmeiras, mais longe e perto das coisas mais macias; me faça esquecer (depressa) os homens ruins – isto é: os que gostam de cebola crua; me ensine, Rosinha Desossée, tudo o que eu não aprendi: a cortar com a mão direita, a usar anel, a tocar piano, a desenhar uma árvore e valsar; e me lembre do que eu esqueci – raiz quadrada, (as mais ordinárias), frações, latim, geofísica e Navio negreiro, de Castro Alves; depois, me dê, pelo bem dos seus filhinhos, aquilo que eu não tenho há quase um ano, carinho – de um jeito que eu não sei dizer como é, mas que há, por aí ou, pelo menos, já houve; destelhe a casa, deixe a noite entrar e, juntos, vamos nos resfriar; espirre de lá, que eu espirro de cá... agora, cada um com a sua bombinha, inalação, inalação; lado a lado, sentemos, os dois de perfil para o ventilador; minhas mãos e as suas não são de ninguém, entendido?; se interesse por mim e pergunte o que eu sei, que eu quero exclamar, no mais puro francês: "oh!'' com o livro nas pernas, leiamos Dom Jaime: "os D'Aragão sabem cingir a espada, mas matam a punhal uma mulher desarmada"... agora é mais sério e você, Desossée, telefone ao banqueiro, propondo meu crédito, você de avalista; repare o relógio, que andou tão depressa, são horas, partamos, o rumo é Paris; "bom dia, Vinícius, "comment allez vous"? e todos, na mesa, olhando pra nós, perguntarão, repletos de ânsia: "Afganistão, capital?... de um jeito ou de outro, me tire daqui, pra Pérsia, Sibéria, pro Clube da Chave, pra Marte, Inglaterra, sem couvert, sem couvert: está vendo o retrato dos meus vinte anos? de lá pra cá, cansaço, pé chato, gordura, calvície fizeram de mim essa coisa ansiosa, insegura e com sono, que pede a você, no auge do manso: você, Desossée, não saia esta noite e fique, ao meu lado, esperando que o sono me tome e me mate, me salve e me leve, por amor ao teu andar, assim seja...

– Ofertório: "Azul com azul se paga" (São Luiz Lopes Coelho – São Paulo).

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