19 jul 1960

Segredo do apartamento 912

Periódico
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Fonte: Benditas sejam as moças: as crônicas de Antônio Maria. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2002, pp. 33-36

Avisara, pelo telefone, que ia chegar. Ele a recebeu, no elevador, e a abraçou, fundamente, de olhos fechados. Beijou-a, depois, na boca, no nariz e na cabeça, tomando-lhe o rosto com as duas mãos. Sua alegria era aflita, quando ela vinha.

– Chega. Me leve daqui – pediu ela.

Levou-a para o apartamento e começou a perguntar-lhe pela vida.

– Faz minha sopa, que estou com frio – disse ela, sem antes ter respondido a nenhuma das perguntas. Era uma sopa alemã, em tabletes. Cada tablete dá quatro sopas. Ele tinha que ter sempre em casa, para quando ela chegasse. Botou água para ferver e cortou o tablete em quatro. Jogou um dos quadradinhos dentro da panela e tirou a xícara, a que era dela, de porcelana alemã, onde havia, em letras góticas, um verso de Goethe: "Só será feliz a alma que amar". Uma xícara maior que as outras, como as das crianças, a quem se fazem os dengues.

– No dia que você quebrar minha xícara, nem que seja um pedacinho, não venho mais aqui – disse ela, atrás dele, enquanto ele começava a mexer o quadradinho de sopa, na água quente. Depois, sem dizer nada, pegou-lhe no cabelo, que estava grande cobrindo as orelhas (sorriu do cabelo grande); levantou-lhe um pouco o blusão, para ver se o cinto era o mesmo que ela lhe dera (era); depois, encostou-lhe a testa, com força, no ombro e beijou-lhe o braço. Ele fazia a sopa pensando em uma porção de coisas. Que ela era uma criança; que não podia viver por aí a vida que vivia; que todas as pessoas e todas as coisas só lhe faziam mal; por isso ela vinha, de vez em quando, e pedia a sopa; porque sua casa era aquela, onde havia sopa e verdade. Ele pensava todas essas coisas e foi fazer a mesa, com um guardanapo, a xícara e a colher. O guardanapo e a colher, como a xícara, eram especiais – tinham as letras do nome dela.

Ela foi ao quarto, enquanto a sopa ficava pronta. Voltou com a camisa que vestia sempre. De malha de algodão, azul, mangas compridas. Como era dele, nela ia até aos joelhos. As mangas, tinha que arregaçar para não cobrir as mãos. Nos pés, os chinelos de prender entre os dedos (dele), duas vezes o seu tamanho. Ficava uma figura muito engraçada, naqueles trajes. Como era bonita, podia vestir o que vestisse e ficava muito engraçada. Ele a chamou para tomar a sopa e deu-lhe, na mão, as duas bolachas cream crackers de sempre. Sentou-se atrás, numa poltrona, e começou a falar. E falava coisas mais ou menos assim:

...que ela tinha de fazer uma vida qualquer, que não fosse a que fazia; que tinha de trabalhar e cuidar mais do filho; que não via por que abandonou o curso de inglês e as aulas de balé...

Ela o interrompeu para dizer que a sopa estava com o gosto um pouquinho diferente. Ele continuou:

...que ela só se metia com gente sem proveito, que os outros não davam nada a ela – só tiravam; que o seu maior desejo (dele) era metê-la num colégio de freiras até envelhecer.

Engolindo a sopa, com uma bolacha na boca, ela lhe disse, sem virar a cabeça:

– Você não é meu pai.

E continuou a tomar a sopa, com barulho, como as crianças tomam sopa. Depois, levantou e sentou no sofá, ao lado da vitrola. Pegou uma revista e ficou passando página, enquanto fazia as perguntas de sempre:

– Quem é tua mulher agora?

Ele respondeu que nenhuma e dispôs-se a continuar na reza das repreensões. Ela, virando página, perguntou ainda:

– Quem é uma Alice, altona, de olho puxado?

Ele respondeu que não sabia, e ela, muito séria, sem parar nas páginas e sem tirar os olhos da revista, disse também muito séria:

– No dia que você gostar de outra pessoa, eu me mato.

Largou a revista e foi buscar um disco na estante. O mesmo Aznavour. O lado que começa com uma canção triste: Il pleut. Pede que lhe vá dizendo o sentido da letra: "A vida toda está molhada" etc.

...Vem do sofá para a poltrona e senta sobre as pernas. Enrosca-se-lhe no pescoço. Ele a enlaça e lhe sente o cheiro e os seios.

– Deixe eu quietinha – pede-lhe ela. Depois: só em você fico assim. Depois: só tenho uma casa, que é esta. Depois: As outras pessoas nem são gente. Depois: Que é isto aqui no seu ombro? (Ele responde que deve ter sido mordida de mosquito.) Depois: Me bota na cama, assim como eu estou.

Ele se ergue com ela nos braços. Levanta a perna e, com dois dedos do pé (com ela nos braços), puxa a colcha até o fim da cama. Deita-a. Deita-se ao lado. Ela vira-lhe as costas e pede-lhe que a abrace. Ele pensa em como fica cômodo toda vez que a abraça assim. São poucas as pessoas a quem a gente se abraça e fica cômodo. As pessoas que se amam são confortáveis entre si. Ele ia explicando quanto o abraço dos dois dava certo, quando ela o interrompeu, dizendo que estava sentindo e pensando a mesma coisa.

Na sala, a canção de Aznavour se repetindo. O braço da vitrola, mal acaba o Mourir pour toi, volta ao Il pleut. Vai ficar tocando, a noite inteira. É sempre assim.

– Como é o nome daquela palavra grande, que tem no rótulo da sopa? – pergunta ela, com a voz abafada pelo travesseiro.

Faz sempre essa pergunta. Ele diz que só sabe uma, a da marca: Zamek. Ela diz, orgulhosamente, a palavra toda, como um alemão lhe ensinou:

Nohrungsmitteltabriken.

Sorri. Ajeita mais o corpo no corpo dele. Segue um pouco a melodia de Il pleut, de boca fechada.

– Você tira a letra para mim?

– Tiro.

– Depois traduz?

– Traduzo.

– A mulher que não gosta de banho é verdade?

– Não.

Naquele momento, nada na vida era verdade, além do abraço, além do cheiro dos cabelos, além da canção, que dizia estar a vida molhada. Na rua, os últimos ruídos da noite, cada vez mais distantes.

Há um grande segredo no apartamento 912. Não adianta contar depois daí, porque, mesmo sabendo, mesmo entendendo, ninguém dirá que é verdade.

antonio-maria