Fonte: O luar e a rainha, Companhia das Letras, 2005, pp. 249-250. Publicada, originalmente, no site da BBC, em 14/11/2000.

"A brutalidade dos Estados Unidos, a sua grosseria mercantil, a sua desonestidade administrativa e o seu amor ao apressado estão nos fascinando e tirando de nós aquele pouco que nos era próprio e nos fazia bons. O Rio é uma cidade de grande área e de população pouco densa; e de tal modo o é que se ir do Méier a Copacabana é uma verdadeira viagem, sem que, entretanto, se saia da zona urbana. De resto, a valorização dos terrenos não se há feito, a não ser em certas ruas e assim mesmo em certos trechos delas, não se há feito, dizia, de um modo tão tirânico que exigisse a construção em nesgas de chão de skyscrapers."

"Por que faziam então?"

"É por imitação, por má e sórdida imitação dos Estados Unidos, naquilo que têm de mais estúpido – a brutalidade. Entra também um pouco de ganância, mas esta é a acoroçoada pela filosofia oficial corrente, que nos ensina a imitar aquele poderoso país. [...] O Rio de Janeiro não tem necessidade de semelhantes ‘cabeças de porco’, dessas torres babilônicas que irão enfeá-lo e perturbar os seus lindos horizontes. Se é necessário construir algum, que só seja permitido em certas ruas com a área de chão convenientemente proporcional."

Fecha aspas. O que foi dito e escrito até agora não é, infelizmente, de minha autoria. Palavras do grande Lima Barreto, estupendo escritor e jornalista, nascido em 1881 e falecido em 1922. O artigo do qual pincei o trecho data de 1917 – repito: 1917 – e o que o ocasionou foi um incêndio na rua da Carioca.

Como ficou patente, Lima Barreto se opunha à imitação dos Estados Unidos e prezava a possibilidade de um Rio de Janeiro mais humano.

Não tenho nada a acrescentar. Apenas sugiro que leiamos mais nossos escritores e jornalistas nascidos antes de 1970 e que choremos amargamente o que foi feito daquela cidade bobamente apelidada um dia de Cidade Maravilhosa.

Ah, sim! "Acoroçoar" eu não digo o que é. Todo mundo deve ir pelo menos uma vez por dia a um bom dicionário.

E, por falar em lexicografia, será que skyscraper ainda não tinha sido traduzido para "arranha-céu", ou Lima Barreto estaria sendo irônico?

ivan-lessa
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.