Um gênero tipicamente brasileiro

Terno e gravata,  Chácara Arara, Londrina-PR, 1947. Foto de Haruo Ohara/ Acervo Instituto Moreira Salles.

Eternamente deleitável ou imediatamente deletável — depende menos do tema do que das artes do autor —, a crônica pode não ser um “gênero de primeira necessidade, a não ser talvez para os escritores que a praticam”, como sustentava Luís Martins (...). Um subgênero, há quem desdenhe. “Literatura em mangas de camisa”, diz-se em Portugal. Mas, para o crítico Wilson Martins, trata-se de uma “espécie literária” que de jornalístico “só tem o fato todo circunstancial de aparecer em periódicos”.

Num estudo memorável, “A vida ao rés do chão”, de 1980, recolhido no volume Recortes, o crítico Antonio Candido admitiu que “a crônica não é um ‘gênero maior’” — para em seguida se rejubilar: “‘Graças a Deus’, seria o caso de dizer, porque sendo assim ela fica mais perto de nós”. E mais adiante: “[A crônica] não tem pretensões a durar, uma vez que é filha do jornal e da era da máquina, onde tudo acaba tão depressa. Ela não foi feita originalmente para o livro, mas para essa publicação efêmera que se compra num dia e no dia seguinte é usada para embrulhar um par de sapatos ou forrar o chão da cozinha”.

Outro crítico, Alceu Amoroso Lima, achava que “uma crônica, num livro, é como um passarinho afogado”. Aplicável à prosa esquecível dos cronistas medianos, o julgamento de Alceu não veste a contento os mestres no gênero. “Quando passa do jornal ao livro, nós verificamos meio espantados que a sua durabilidade pode ser maior do que ela própria pensava”, observa Antonio Candido, que vê na crônica “uma conversa aparentemente fiada”. Ele não está falando, é claro, de qualquer um: “A vida ao rés do chão” foi originalmente publicado como introdução a uma coletânea de escritos de craques como Rubem Braga, Rachel de Queiroz, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade e Paulo Mendes Campos.

A esse quinteto se somavam, num abençoado momento, muitos outros grandes (Bandeira, Nelson Rodrigues, Mario Filho, Antônio Maria, Vinicius, José Carlos Oliveira) —, contribuindo para compor o que foi sem dúvida a quadra mais brilhante da crônica no Brasil: os anos 1950 e 1960. Naquela época, os leitores da finada O Cruzeiro tinham encontro semanal com Rachel de Queiroz na última página da revista — e os da Manchete, igualmente desaparecida, com Sabino, Mendes Campos e o velho Braga (“o sabiá da crônica”, batizou Stanislaw Ponte Preta), além de Henrique Pongetti.

Todo esse glorioso time já se foi. Mas não só a obra dos campeões permaneceu como tem havido uma constante reposição. E não só com o sangue novo de jovens escribas. Quando menos se esperava, o ficcionista e articulista Otto Lara Resende, à beira dos setenta anos de idade, virou a sensação da página dois da Folha de S.Paulo, no início da década de 1990. Não foi sem boa dose de razão que o colunista Telmo Martino observou: “A crônica é o pássaro dodô da literatura. Em quase todo os países, é um gênero extinto. Mas na reserva literária do Brasil é uma espécie em sempre crescente proliferação”. De fato, aclimatou-se aqui melhor do que em qualquer outra parte do mundo — a ponto de se poder considerá-la um gênero tipicamente brasileiro.

Prefácio a Boa companhia: crônicas, antologia lançada pela Companhia das Letras em 2005.

* Humberto Werneck, Editor deste Portal, foi por dez anos cronista de O Estado de S. Paulo, no momento licenciado. Organizou a antologia Boa companhia: crônicas, da Companhia das Letras, e Melhores crônicas, de Ivan Angelo, da Global. No gênero, publicou Sonhos rebobinados e Este inferno vai acabar, ambos da Arquipélago Editorial, e O espalhador de passarinhos, da Dubolsinho.