Cronista puro-sangue

(...) É conhecida a dificuldade em que mesmo os especialistas se enredam quando se trata de definir o que é crônica. Rubem Braga, inigualável no gênero, costumava brincar quando lhe faziam a pergunta: “Se não é aguda”, dizia, “é crônica”. Há mesmo quem duvide de que seja propriamente um gênero, preferindo vê-la como um híbrido subproduto do jornalismo e da literatura. Pouco importa. Basta-nos constatar que a crônica, chegada ao Brasil nas caravelas da cultura europeia do século XIX, aqui se aclimatou admiravelmente — quem lembra é o crítico Antonio Candido —, a ponto de ganhar uma feição inconfundivelmente brasileira. Um pouco — para baixar (ou levantar) a bola — como o futebol, que nos trópicos veio a ganhar molejo bem diverso da rígida cintura britânica de quem o inventou.

Ainda com o nome de folhetim, e antes que as contingências da imprensa a fizessem encolher consideravelmente, para reduzir-se por fim a um palmo de prosa, a crônica teve no Brasil cultores de primeira linha, entre eles Machado de Assis, José de Alencar e João do Rio, potáveis até hoje. Mas só com Rubem Braga, a partir dos anos 1930, foi adquirir as características que fizeram dela um, sem trocadilho, gênero de primeira necessidade na mesa do leitor da revista e do jornal — e também do livro, com especial força a partir de 1960, quando a criação da Editora do Autor (da qual Rubem Braga era um dos donos) permitiu perenizar textos que, escritos para o dia, para a semana, no máximo para o mês, em princípio têm curtíssimo prazo de validade.

Além de Braga e de Fernando Sabino — seu sócio naquela empreitada e numa subsequente, a Sabiá, que foi pelo mesmo caminho —, praticamente todos os cronistas graúdos da época foram então publicados em livro: Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, Stanislaw Ponte Preta, Vinicius de Moraes, José Carlos Oliveira... E também Manuel Bandeira e Cecília Meireles, incluídos nos dois volumes da coletânea Quadrante, depois rebatizada Elenco de cronistas modernos, predecessora de outra série de grande êxito, a coleção Para Gostar de Ler, que a Editora Ática lançaria nos anos 1970. O objetivo expresso no título dessa coleção era, de resto, o mesmo dos lançamentos avulsos da Editora do Autor e da Sabiá, e não há erro em afirmar que, tanto num caso como no outro, ele foi amplamente alcançado: gerações sucessivas se formaram, e ainda se formam, na prazerosa leitura de textos que, segundo alguns, nem sequer constituiriam um gênero literário...

Acrescido de nomes como Nelson Rodrigues, Rachel de Queiroz e Antônio Maria, que na mesma época escreviam em revistas e jornais do Rio de Janeiro, o time acima escalado protagonizou o momento de ouro da crônica brasileira. Mais recentemente, a palavra passou a agasalhar também uma variedade de escritos de cunho mais jornalístico do que literário — o editorial, o comentário muito em cima do fato. Sem prejuízo da importância que tenham e do interesse que suscitem, talvez se devesse abrigá-los sob outros rótulos, reservando-se o termo crônica para designar uma produção ditada mais pela subjetividade do que pela objetividade jornalística; textos marcados pelo lirismo e pelo humor, quando não por ambos, muitas vezes sob a forma de histórias inspiradas em aparentes miudezas do cotidiano, ou de virtuais poemas em prosa — e sobretudo destilados com a mão leve que naquele momento afortunado fez o encanto do gênero e assegurou a sua permanência. (...)

*Prefácio a Melhores crônicas, de Ivan Ângelo. Global, 2007.