12 jul 1953

Canseiras do pedestre, adeus!

 
Fonte: Da quieta substância dos dias. São Paulo, IMS, 1991, pp. 29-31.

A coisa extraordinária aconteceu. E aconteceu publicamente, à vista de todos. Mas aconteceu sem que parecesse um acontecimento, o grande acontecimento que era, na realidade. 

Quando uma coisa extraordinária vem a acontecer, acontece também que surge sempre uma consciência que a registra, uma voz que aplaude ou reprova, um gravador ou uma estação de rádio, uma coluna de jornal que a recolhe e propaga. Esta, porém, aconteceu e continua acontecendo sem que se ouça uma palavra, um repique de sino, um foguete, uma fanfarra, um viva ou uma vaia.

Aconteceu, enfim, como não tivesse acontecido. E no entanto nada está influindo mais na vida local e nada constitui um índice mais eloquente das mutações por que têm passado as maneiras de vida nesta cidade. Essa coisa tão extraordinária é a inauguração dos transportes coletivos. É o ônibus.

Quando em 1949 apareceram os primeiros, foi um virar de página, um mudar de registro e melodia. Apareceu com eles algo inédito na história econômica deste município, a prova material de que uma nova humanidade aqui estava funcionando sob novos interesses, nova cultura, novo ritmo de existência, conduzindo a população a seus novos destinos. O ônibus viera pintar de outros coloridos o horizonte das atividades locais, o anseio popular de se locomover e de se comunicar com maior frequência, maior velocidade e maior conforto.

A instituição dos transportes coletivos urbanos foi de certo modo uma instituição inteligente e redentora. A gente de Poços de Caldas é gente industriosa e andeja que, mal rompe a manhã, borbulha nas ruas e aí fica até noite velha com suas pequenas e suas grandes lutas. E ninguém ignora o que era a agonia do poços-caldense para movimentar-se ao longo da cidade atropelada, principalmente o proletário, obrigado a fazer à sola de botinas uma eterna agrimensura no caminho de suas dificuldades. Nós tínhamos de ir inapelavelmente a pé da Vila Nova para o Country Club ou de Vila Cruz para o Quisiana, carregando todo o peso de nossas cestas, de nossos calos e nossas incertezas do futuro, todo o peso do homem condenado a pedestre, a tristíssimo bicho do chão e carregador de si mesmo. Peso que parecia sem alívio e que tanto imita aquele que Sísifo sustentava no inferno de Dante, ao tempo em que o inferno era lugar de pessoas ilustres e fortes. E o mais dantesco para nós, os da plebe desmotorizada, é que a situação também parecia sem esperança.

Alguns beneméritos de antanho, valentes e honrados precursores, hoje completamente esquecidos, fizeram alguma coisa para salvar-nos e é justo que lhes tributemos hoje a homenagem desta simples referência. Um deles foi o engenhoso Constantino Muniz Barreto que por volta de 1900 pôs nos trilhos um bondinho puxado a burros, fazendo o percurso entre a Estação Ferroviária da Mogiana e o seu hotel, perto das fontes de Pedro Botelho: Constantino, como valente português, aqui se achava sobre trilhos nunca dantes navegados. Outro foi o glorioso capitão Euzébio Ferreira, da não menos gloriosa Guarda Nacional, que em 1915 concebera o ônibus que do centro da vila transportava gente que ia ver o lago, os barcos, os patos e marrecos do Country Club, a princípio batizado como Posto Zootécnico, fundação do douto prefeito Escobar. Não é preciso dizer que as empresas daqueles dois heróis fracassaram deploravelmente. Não poderiam ter vencido naquela época em que o mundo era ainda tão imenso, a vida tão sem pressa, as horas tão leves e as botinas tão baratas. Assim, durante trinta anos continuamos a pé. Mas eis que ressurgem os novos Constantino, os novos capitães Euzébios e – desta vez, sim! – encontram um mundo oportuno e frenético. Vencem.

Em trinta anos passamos do couro de sapato ao pneumático, do suor para a gasolina, da marcha à chispada em poltronas velozes. Pode ser um mal essa mecanização da vida e pode ser que venhamos um dia a destruir como inimigas essas máquinas rodantes que hoje nos servem e nos encantam. Porém, é forçoso reconhecer agora que elas representam um avanço e constituem uma definição da moderna consciência urbana. Mesmo dizendo que esses ônibus, símbolos de uma coletividade evoluída, são também símbolos da servidão econômica aos seus fabricantes estrangeiros e aos donos do petróleo, nem por isso terá um mau agouro semelhante parecer, nem pode dispensar registro o acontecimento notável que eles representam.

Não prosperará menos o oficial que trabalha com ferramentas alheias. Chegará o dia em que esse oficial fabrique as próprias, à custa de compreender o quanto valem as ferramentas do vizinho.

jurandir-ferreira