23 jun 1963

Nos tempos de seu Joãozito

 
Fonte: Da quieta substância dos dias. São Paulo, IMS, 1991, pp. 95-98

João Sabino Pereira, prático provisionado, acaba de morrer. E é inevitável a frase feita para significar o que realmente aconteceu, isto é, para dizer que em Poços de Caldas desaparece com ele não um homem mas uma instituição. Desaparece a velha farmácia dos piluleiros e dos almofarizes, da qual ele foi entre nós o derradeiro dos figurantes. Morrendo aos 78 anos, era dos tempos em que a farmácia não lidava com muitos remédios que não fossem produzidos pela mão dos seus auxiliares ou dos seus farmacêuticos, os velhos tempos em que eles em qualquer parte se acusavam pelo cheiro peculiar ao mundo botânico e ao mundo químico em que viviam mergulhados.

O farmacêutico (ou o boticário) era o homem que sabia de que se compunham os remédios, para que fim seriam eles e como prepará-las. Bem diferente dos dias de hoje, onde farmácias e drogarias pouco se distinguem de lojas com seus caixeiros. O contato dessa rapaziada de agora com o seu público é no geral o contato polido e passageiro entre comerciante e freguês. Nos tempos de seu Joãozito menino ou rapazola, trabalhando como um noviço ou como prático, a gente da farmácia dava ao seu cliente, no vidro de remédio, muito de si mesma, de sua inteligência, de sua habilidade, de seu aprendizado e de seu calor humano, pois eram a essa altura tão grandes as incertezas da medicina e tão longos, aplicados e complicados os trabalhos da farmácia. Como que ia em cada vidro de remédio, de mistura com ciência e arte, os votos, as esperanças, a alma e o sangue do farmacêutico. Assim entre o doente e a farmácia se estreitavam os laços samaritanos, a aproximação se fazia através dos vínculos de uma avultada responsabilidade profissional.

Não fosse ainda nossa vila tão pequena, todos se conhecendo tão de perto e se interessando tanto uns pelos outros. Não havia estranhos. Mesmo os "banhistas" recém-chegados logo se sentiam à vontade. Era quase um sistema de convívio em família, a existência comum envolvendo mais um sentido de serviços mútuos que de negócios. Por isso todos trabalhavam e poucos enriqueciam. A intimidade abolia praxes e conveniências. Nada funcionava sob interesses rígidos ou horários curtos e implacáveis. O comércio fechava às nove da noite e nos domingos às três da tarde. E isso porque afinal era preciso fechar de algum modo. As farmácias, essas eram as últimas a cerrar as portas e não conheciam domingos nem feriados. Estavam como que em "sessão permanente". Não adiantava mesmo fechar, a clientela era como gente de casa e precisando vinha a qualquer hora.

Pertenceram a esse tempo a farmácia de seu Sá, ou José Antônio Augusto de Sá, a de seu Westin, ou Eduardo Pio Westin, a do seu Luizinho, ou "major" Luiz Loyolla, os primeiros farmacêuticos de que a cidade tem notícia. Eram homens ilustrados, prestantes e de íntegro caráter. Outros se lhes seguiram, como Teófilo Lobato, Leônidas Clemente Ferreira, Maurílio Figueiredo, Djalma Paiva, Artur Andrade, João Porfírio Brandão, para citar os mais antigos e aqueles cuja vida teve entre nós um maior sentido de integração e permanência. A eles todos, em cuja disciplina aprendera o seu ofício, a eles todos, por ter começado na adolescência, seu Joãozito sobreviveu. Dirigiu, como prático provisionado, a sua própria farmácia, 'chamada Farmácia Santo Antônio, a qual sempre foi, como ele mesmo, singela, pequena, tranquila e infatigável. Seu Joãozito estava de tal modo integrado nela como um homem num "pulmão de aço". Através dela,

por ela e com ela é que ele respirava, é que ele vivia. Morava dentro dela, dentro dela passou sua existência, criando e educando sua família e suportando um trabalho para o qual não escolhia nem tempo nem hora.

Os que altas horas da noite já passaram pela angústia de precisar de remédios sabem o quanto de resistência, de bravura, de bondade e de noção do seu dever havia naquele velhinho que aparecia prontamente para atender à campainha da Farmácia Santo Antônio. Através de quantas gerações, através de quantas e quantas noites, seu Joãozito não soube o que era dormir tranquilamente! É que ele com isso tinha um lucro extra – dirão alguns. Seria decerto um ambicioso. Não. Após sessenta anos de vida em farmácia, graças a Deus esse homem honrado morreu pobre. O que o sustentava não era o lucro de ganhar, era o lucro de dar, de que apenas o seu coração se enriquecia, servindo, socorrendo, ajudando.

Deus sabe o quanto a farmácia pode ser nobre, dessa difícil e insondável nobreza das pequeninas coisas de todas as horas. Só não o sabem os que a transferiram e ainda a transferem para o bolso dos Rockefellers da indústria de remédios e a transformam num cúmplice instrumento da mais nefanda espoliação do nosso povo. A indústria de remédios foi amparada e se ergueu – diziam – para que os medicamentos, produzidos em grande quantidade, saíssem melhores e mais baratos. Deu-se o contrário. Avoluma-se espantosamente o número de medicamentos inúteis, ordinários ou maléfícos, e todos sem distinção se vendem caríssimos. Quando, no tempo de seu Joãozito, os farmacêuticos ainda manipulavam, inúmeros remédios eram melhores, a começar pelo preço.

É inelutável que se voltem as páginas ao livro do Tempo e que a história do homem a cada período altere os cenários e mude os personagens. Não se pode pretender que o mundo da penicilina e da cortisona seja idêntico ao do unguento napolitano e das pílulas de iodofórmio. O que raros perguntam, entretanto, é se todas as coisas modernas e de ordinário festejadas representam adiantamento indiscutível, melhoria definitiva e se elas valeram a pena. 

Aí está na vida de seu Joãozito e no tempo em que ele exerceu a sua profissão muitas lições que não deviam caducar, mas salvar-se aos padrões renovadores, às vezes tão apressados, radicais e injustos.

É necessário que a cidade, que por sessenta anos se valeu do seu trabalho obscuro, dedicado, incessante e indispensável, não emudeça como os musgos sobre o cimento do seu túmulo, mas que se edifique na sua vida e na sua morte e tenha neste instante uma voz que pronuncie o seu nome com a veneração e o respeito, com o fervor, o devotamento e a humildade com que ele sempre a serviu. Seria uma indignidade esquecermos em Poços de Caldas esse velho vigilante da saúde. Seria falta inescusável não exaltarmos esse rijo trabalhador que, ao se fazer tão útil como pequenino e pobre, aumentou as dimensões morais de sua classe e concorreu com exemplar simplicidade para nobilitar também a nossa condição humana.

jurandir-ferreira