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A consolação da doença

 
Fonte: Seja feliz e faça os outros felizes: as crônicas de humor de Antônio Maria. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2005, pp. 37-38

Segunda-feira. Amanheço com uma pontinha de febre. Nada grave, mas o homem, desde que sinta uma pontinha de febre, deveria ter direito a ficar na cama e não fazer absolutamente nada que não fosse viver a sua febre. O ideal seria recolher-se a uma Casa de Saúde, cercado de enfermeiras, de batas alvíssimas, que lhe fizessem perguntas carinhosas:

– Então, está melhorzinho?

E, enquanto perguntassem, contassem-lhe as pulsações, tomassem-lhe a pressão, pusessem-lhe o termômetro...

– Debaixo do braço, por favor!

...e, sem nada dizer sobre o pulso, a tensão arterial e a febre, fizessem o doente tomar, sem discutir, um comprimido branco (o comprimido viria numa colher), cujo nome não revelaria.

Quando se está doente, mesmo que tudo não passe de uma pontinha de febre, é preciso proceder como doente. Vestir um pijama claro, tomar banho e comer (torradas, maçãs descascadas, sucos de fruta), na cama. As pessoas da família devem estar por perto e, de vez em quando, a mulher, se o doente for casado, deve pôr-lhe a mão na testa e dizer coisas que o envaideçam – por exemplo:

– Eu gosto tanto quando você está doente. A gente fica mais junto um do outro.

Então, o doente abre os olhos (o bom doente é aquele que mantém os olhos fechados), sorri e, tomando a mão da esposa, aperta-a, docemente, num gesto convencional, que quer dizer: eternidade. Tudo isto é ridículo, mas necessário ao doente. Todos os doentes, quanto menos grave for a doença, mais precisam de carinhos formais; exatamente, os ridículos.

Cá estou, com uma pontinha de febre, que ninguém levou a sério. Nem eu. Mas gostaria de ser tratado como doente e de não ter nada a ver com coluna de jornal, programas de rádio e televisão. À tarde, terei que sair para fazer uma entrevista. Vestir paletó e gravata – duas peças que nenhum doente, mesmo que seja um resfriado, deveria vestir. Depois de vestido, suarei na testa. Tomarei o automóvel... E ninguém perguntará se estou melhorzinho.

A ciência médica progrediu e já não se tomam tantos cuidados com quem tem doença "micha". Para se ser bem tratado é preciso que se tenha uma lesão cardíaca, um acidente de circulação ou uma leucemia. Com uma pontinha de febre não adianta fazer fita porque ninguém liga. Ah, que saudade do impaludismo! Os calomelanos, as gotas de acônito, o crucifixo, com um laço de fita vermelha, no espaldar da cama. Os lençóis muito brancos.

O médico tirava o termômetro de um estojinho de ouro. No estojinho de ouro havia uma cobra, com uma esmeralda na cabeça.

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Segunda-feira. Amanheço com uma pontinha de febre. Nada grave, mas o homem, desde que sinta uma pontinha de febre, deveria ter direito a ficar na cama e não fazer absolutamente nada que não fosse viver a sua febre. O ideal seria recolher-se a uma Casa de Saúde, cercado de enfermeiras, de batas alvíssimas, que lhe fizessem perguntas carinhosas:

– Então, está melhorzinho?

E, enquanto perguntassem, contassem-lhe as pulsações, tomassem-lhe a pressão, pusessem-lhe o termômetro...

– Debaixo do braço, por favor!

...e, sem nada dizer sobre o pulso, a tensão arterial e a febre, fizessem o doente tomar, sem discutir, um comprimido branco (o comprimido viria numa colher), cujo nome não revelaria.

Quando se está doente, mesmo que tudo não passe de uma pontinha de febre, é preciso proceder como doente. Vestir um pijama claro, tomar banho e comer (torradas, maçãs descascadas, sucos de fruta), na cama. As pessoas da família devem estar por perto e, de vez em quando, a mulher, se o doente for casado, deve pôr-lhe a mão na testa e dizer coisas que o envaideçam – por exemplo:

– Eu gosto tanto quando você está doente. A gente fica mais junto um do outro.

Então, o doente abre os olhos (o bom doente é aquele que mantém os olhos fechados), sorri e, tomando a mão da esposa, aperta-a, docemente, num gesto convencional, que quer dizer: eternidade. Tudo isto é ridículo, mas necessário ao doente. Todos os doentes, quanto menos grave for a doença, mais precisam de carinhos formais; exatamente, os ridículos.

Cá estou, com uma pontinha de febre, que ninguém levou a sério. Nem eu. Mas gostaria de ser tratado como doente e de não ter nada a ver com coluna de jornal, programas de rádio e televisão. À tarde, terei que sair para fazer uma entrevista. Vestir paletó e gravata – duas peças que nenhum doente, mesmo que seja um resfriado, deveria vestir. Depois de vestido, suarei na testa. Tomarei o automóvel... E ninguém perguntará se estou melhorzinho.

A ciência médica progrediu e já não se tomam tantos cuidados com quem tem doença "micha". Para se ser bem tratado é preciso que se tenha uma lesão cardíaca, um acidente de circulação ou uma leucemia. Com uma pontinha de febre não adianta fazer fita porque ninguém liga. Ah, que saudade do impaludismo! Os calomelanos, as gotas de acônito, o crucifixo, com um laço de fita vermelha, no espaldar da cama. Os lençóis muito brancos.

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Quando se está doente, mesmo que tudo não passe de uma pontinha de febre, é preciso proceder como doente. Vestir um pijama claro, tomar banho e comer (torradas, maçãs descascadas, sucos de fruta), na cama. As pessoas da família devem estar por perto e, de vez em quando, a mulher, se o doente for casado, deve pôr-lhe a mão na testa e dizer coisas que o envaideçam – por exemplo:

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