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Advertência aos incautos

 
Fonte: Seja feliz e faça os outros felizes: as crônicas de humor de Antônio Maria. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2005, pp. 101-103

A vida ensina que a gente se deve dar com o menor número possível de pessoas e frequentá-las cada vez menos. Isto porque o "próximo" de um modo geral não nos acrescenta nada e, quase sempre, tira. 

Sem querer dizer que "o próximo" seja, invariavelmente, um infeliz, não podemos calar que, entre dez "próximos", oito são infelizes. Não infelizes porque lhes faltem pernas, braços, olhos, cabelos ou orelhas. São infelizes por dentro, porque lhes faltam afeto, generosidade e bom gosto. Com um infeliz não se pode conviver cinco minutos. Ele chega muito amável, mas, daí a pouco, sem se conter, dirá alguma coisa que nos desgoste. Dirá, por exemplo, que alguém disse "isso e aquilo" de nós. Ou então, dirá ele, fazendo a ressalva dos infelizes:

– Quer que eu lhe fale com absoluta franqueza? Você está com uma cor muito feia. Por que não procura um especialista? 

Entre os seus conhecidos, marque bem os infelizes. Evite-os e, não sendo possível, vista-se de uma couraça que proteja sua sensibilidade, sua paz contra o que eles irão dizer. 

Há mulheres que são especialistas em perguntar às outras:

– Outro dia, quando você estava no bar com seu marido, você estava loura, não estava?

É por isso que eu gosto de chuva e, quando chove, de ficar em casa, lendo e dormindo. Ah, sou contra os domingos e feriados ensolarados! Pelo meu gosto chovia, sem parar, aos sábados, domingos, bem como em todos os feriados e dias santos. De que serve torcer para abrir o sol e pegar uma praia, se na praia chegará um infeliz (com barraca e tudo) para perguntar, com cara de anjo:

– Você está mais gordo, não está?

Sempre fui uma pessoa muito prevenida contra os infelizes: eles não me atingem. Ao contrário. Como já os conheço pelos nomes e já lhes sei o grau de desgraça, adivinho o que cada um vai me dizer ou perguntar. Divirto-me com isto. Por exemplo, já fui enorme de gordo e encontrei sempre quem me dissesse:

– Quer que eu lhe seja absolutamente franco?

Nunca tive tempo de responder: "Não, não! Por favor, seja hipócrita"! Então, o infeliz usava de franqueza:

– Você precisa emagrecer. Primeiro, porque a gordura leva, fatalmente, ao câncer. Depois, porque você fica tão feio assim gordo!

O tempo andou e eu emagreci. Essas mesmas pessoas, quando me encontram, depois de duas ou três palavras disfarçadas, entram na franqueza:

– Olha aqui, como você sabe, sou de dizer aquilo que sinto. Você está muito magro. Por detrás de sua magreza, deve haver alguma coisa que o médico precisa ver. E tem mais: quando você era gordo, era muito mais bonito. A mim, que "manjo eles", os infelizes divertem. Mas, a quem ainda não vestiu sua armadura contra o infeliz, gostaria de avisar que o melhor é ficar em casa, deitado, lendo, dormindo. Foi o que eu fiz esta semana. Não por temor aos infelizes, mas em prova de respeito aos burros, que também

são respeitáveis e sentam sempre à nossa mesa, nesta cidade quase sempre bonita, quase nunca sossegada.

Nota importante – Em Les Caves du Vatican, de André Gide, Lafcádio matou Fleurissoire, numa viagem de trem, só porque este lhe pareceu profundamente infeliz.

antonio-maria