O jornal de Antônio Maria. Rio de Janeiro, Saga, 1968, pp. 188-122

(1957 – Quarta-Feira de Cinzas) – Mal cheguei da Europa, as festas me pegaram. O Natal foi numa mesa de boate, com um amigo de infância, o mais pessimista, que me dizia, sem parar:

– Estamos muito velhos. Nossas lembranças têm todas mais de vinte anos.

E bebia o champanhe de uma virada só sem se importar com o gosto. Enxugava a boca na manga do paletó e voltava a dizer que estávamos todos muito velhos. A mulher passou, dançando, e lhe fez uma festinha nos cabelos.

– Foi homem ou mulher? – perguntou-me, míope, o amigo de infância. E ficou muito animado, quando lhe disse que tinha sido uma mulher.

– Bonita ou feia? – quis saber, botando os óculos.

– A mais bonita de todas... – disse eu, com intenção de animá-lo. E ele bebeu mais champanhe, pediu outra garrafa, bebeu mais ainda. Mas, a mulher não passou mais. Aos poucos, o amigo voltou à tristeza de sempre, arriou a cabeça nos braços e dormiu. Ainda lhe ouvi a voz desalentada, pela última vez:

– Estamos todos muito velhos.

Cinco minutos depois, a mulher voltou. Tentou levantar-lhe a cabeça, puxou-lhe os cabelos, fez o que podia... e o meu amigo disse, apenas:

– Me deixa, Antônio Maria.

A mulher deu um muxoxo e foi-se embora. Tinha-se desligado do grupo e viera buscá-lo. Não sei para que, nem até quando. Mas viera buscá-lo. Na vida, as pessoas devem estar sempre acordadas.

***

A noite de Ano Bom foi passada na mesma boate. Na mesma mesa. Apesar das juras que me fiz, minha companhia era a mesma: o amigo pessimista. Quando veio o champanhe, encheu o copo e me disse, com certo orgulho:

– À nossa velhice!

– À tua... – respondi eu.

E, antes que ele começasse a falar da idade das nossas lembranças, expliquei-lhe que me sentia mais jovem e mais bem disposto do que nunca. De tarde, tinha nadado quase mil metros e chegara à praia sem ofegar. Meu amigo não discutiu mas bebeu três copos seguidos de champanhe. Um minuto depois, estava suando na testa e me pedia que lhe contasse as pulsações. Não entendo nada de pulso e, apenas, opinei:

– Eu tenho a impressão que você ainda está vivo.

Meu parecer não lhe fez o menor bem, e continuou a dizer que se estava sentindo cada vez pior. Pediu um café. Depois, uma aspirina. Com o guardanapo embebido em água gelada, esfregava a testa, sem parar.

– Vamos, para o pronto-socorro. Estou com um enfarte.

Levei-o. O médico (um jovem) examinou-o dos pés à cabeça e lhe recomendou, simplesmente:

– O senhor está precisando de um psicanalista.

Dito isto, estouraram os foguetes de sempre, anunciando o ano de 1957. Eu e o médico nos cumprimentamos, cordialmente. Meu amigo me abraçou, cochichando dramaticamente:

– É o nosso último abraço.

Saímos. Pediu-me que fosse com ele para o seu apartamento. Eu era o amigo de infância. O único amigo. Fui. Na geladeira havia umas cervejas. Dava. Na mesa de cabeceira, havia um baralho. Claro, jogamos um pôquer "de mano". Ganhei 40 mil cruzeiros. Não recebi. Havia um sofá ao lado. Deitei-me vestido e acordei, exatamente, com o mal-estar de quem dorme vestido. Como é longe a casa de quem dorme vestido, em casa dos outros!

***

No carnaval, prometi a mim mesmo que não sairia de casa. Fiz uma reserva de frios e cervejas. Comprei uns livros policiais e deixei ordem na portaria: "Não estou para ninguém". 

Lia, dormia, tomava banho de banheira, comia, bebia uma cerveja, lia, dormia, tomava banho de banheira... tudo isto, sem o menor compromisso com a luz, o relógio e o carnaval. De vez em quando um baque na rua. Era o acidente de sempre: dois carros que se chocaram, na esquina de Viveiros de Castro com Prado Júnior. 

Nesse trecho do Leme, a vida é sempre igual. Os carros batem, na mesma esquina, muitas vezes, os mesmos carros. Junta gente. As mesmas pessoas que saem dizendo, escandalizadas:

– Nunca vi uma batida tão grande.

São iguais as comidas dos pequenos restaurantes de uma porta só. Iguais as mulheres do trottoir. A polícia é a mesma desde a fundação da cidade. 

No meu livro policial, Maigret está a caminho do sul da França, onde, certamente, descobrirá o crime. Terá que ir a uma pequena ilha, chamada Porquerolles. Gostaria de ir com ele, mas aqui, em meu quarto, vai tudo muito bem. 

Na terça-feira de manhã tive que refazer o estoque de cervejas da geladeira. Também, os frios, que não se acabaram, mas, empalideceram. 

É uma delícia tomar banho de banheira! Depois, desde que a gente não vá sair, um pouco de lavanda não faz mal nenhum. Olho os meus pés. Os dedos estão engelhados e as unhas brancas. Excesso de banho. 

***

Quarta-Feira de Cinzas, de madrugada, a telefonista resolve invadir meu degredo:

– O senhor me desculpe, mas ele já telefonou onze vezes.

– Diga que não estou.

– Mas ele está aqui, ao meu lado, e diz que é urgente.

Claro, era o meu amigo pessimista. Subiu. Estava mais deprimido que nunca:

– Ela me largou, para sempre. Não gostava de mim.

– Mas, criatura, é mais fácil você se esquecer dela do que fazer com que ela goste de você. 

Pensou (de olhos baixos), olhou-me nos olhos, com alguma gratidão e logo quebrou a seriedade do encontro com uma pergunta insólita: 

– Tem baralho aí?

– Não.

– Eu trouxe o meu.

Tirou do bolso o baralho e jogamos mais um pôquer "de mano". Antes ficou bem combinado que quem perdesse e não pagasse era (CENSURADO). Perdi e tive de pagar, para não ser (CENSURADO). 

Agora, está ele deitado no sofá ao lado, roncando. Vestido, como eu estive em sua casa. Os braços arriados. O paletó aberto. Desgraçado, no Ano Bom, perdeu 40 mil e não pagou, agora, ganhou 40 e recebeu. Ah, não. Sem muitos cuidados, fui-lhe nas algibeiras, tirei o cheque de 50 mil, comecei a fazer outro de mil... mas, pensei... Não vou pagar nada, não. Na realidade, eu não sou mesmo (CENSURADO). 

Quando acordamos, fomos comer um resto de frios, com cerveja e, no primeiro copo, ouvi esta comovida besteira:

– Sabe de uma coisa? É mais fácil ela voltar a gostar de mim do que eu esquecê-la.

Levantou-se, saiu e foi para casa dela, onde, na certa, será um grandissíssimo (CENSURADO). Mas tudo, com a graça de Deus.

***

Eu tenho um amigo de infância. Por isso, não terei natais, réveillons, carnavais, nada. Mas tenho um amigo de infância. E apesar dos pesares, gosto dele.

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– Estamos muito velhos. Nossas lembranças têm todas mais de vinte anos.

E bebia o champanhe de uma virada só sem se importar com o gosto. Enxugava a boca na manga do paletó e voltava a dizer que estávamos todos muito velhos. A mulher passou, dançando, e lhe fez uma festinha nos cabelos.

– Foi homem ou mulher? – perguntou-me, míope, o amigo de infância. E ficou muito animado, quando lhe disse que tinha sido uma mulher.

– Bonita ou feia? – quis saber, botando os óculos.

– A mais bonita de todas... – disse eu, com intenção de animá-lo. E ele bebeu mais champanhe, pediu outra garrafa, bebeu mais ainda. Mas, a mulher não passou mais. Aos poucos, o amigo voltou à tristeza de sempre, arriou a cabeça nos braços e dormiu. Ainda lhe ouvi a voz desalentada, pela última vez:

– Estamos todos muito velhos.

Cinco minutos depois, a mulher voltou. Tentou levantar-lhe a cabeça, puxou-lhe os cabelos, fez o que podia... e o meu amigo disse, apenas:

– Me deixa, Antônio Maria.

A mulher deu um muxoxo e foi-se embora. Tinha-se desligado do grupo e viera buscá-lo. Não sei para que, nem até quando. Mas viera buscá-lo. Na vida, as pessoas devem estar sempre acordadas.

***

A noite de Ano Bom foi passada na mesma boate. Na mesma mesa. Apesar das juras que me fiz, minha companhia era a mesma: o amigo pessimista. Quando veio o champanhe, encheu o copo e me disse, com certo orgulho:

– À nossa velhice!

– À tua... – respondi eu.

E, antes que ele começasse a falar da idade das nossas lembranças, expliquei-lhe que me sentia mais jovem e mais bem disposto do que nunca. De tarde, tinha nadado quase mil metros e chegara à praia sem ofegar. Meu amigo não discutiu mas bebeu três copos seguidos de champanhe. Um minuto depois, estava suando na testa e me pedia que lhe contasse as pulsações. Não entendo nada de pulso e, apenas, opinei:

– Eu tenho a impressão que você ainda está vivo.

Meu parecer não lhe fez o menor bem, e continuou a dizer que se estava sentindo cada vez pior. Pediu um café. Depois, uma aspirina. Com o guardanapo embebido em água gelada, esfregava a testa, sem parar.

– Vamos, para o pronto-socorro. Estou com um enfarte.

Levei-o. O médico (um jovem) examinou-o dos pés à cabeça e lhe recomendou, simplesmente:

– O senhor está precisando de um psicanalista.

Dito isto, estouraram os foguetes de sempre, anunciando o ano de 1957. Eu e o médico nos cumprimentamos, cordialmente. Meu amigo me abraçou, cochichando dramaticamente:

– É o nosso último abraço.

Saímos. Pediu-me que fosse com ele para o seu apartamento. Eu era o amigo de infância. O único amigo. Fui. Na geladeira havia umas cervejas. Dava. Na mesa de cabeceira, havia um baralho. Claro, jogamos um pôquer "de mano". Ganhei 40 mil cruzeiros. Não recebi. Havia um sofá ao lado. Deitei-me vestido e acordei, exatamente, com o mal-estar de quem dorme vestido. Como é longe a casa de quem dorme vestido, em casa dos outros!

***

No carnaval, prometi a mim mesmo que não sairia de casa. Fiz uma reserva de frios e cervejas. Comprei uns livros policiais e deixei ordem na portaria: "Não estou para ninguém". 

Lia, dormia, tomava banho de banheira, comia, bebia uma cerveja, lia, dormia, tomava banho de banheira... tudo isto, sem o menor compromisso com a luz, o relógio e o carnaval. De vez em quando um baque na rua. Era o acidente de sempre: dois carros que se chocaram, na esquina de Viveiros de Castro com Prado Júnior. 

Nesse trecho do Leme, a vida é sempre igual. Os carros batem, na mesma esquina, muitas vezes, os mesmos carros. Junta gente. As mesmas pessoas que saem dizendo, escandalizadas:

– Nunca vi uma batida tão grande.

São iguais as comidas dos pequenos restaurantes de uma porta só. Iguais as mulheres do trottoir. A polícia é a mesma desde a fundação da cidade. 

No meu livro policial, Maigret está a caminho do sul da França, onde, certamente, descobrirá o crime. Terá que ir a uma pequena ilha, chamada Porquerolles. Gostaria de ir com ele, mas aqui, em meu quarto, vai tudo muito bem. 

Na terça-feira de manhã tive que refazer o estoque de cervejas da geladeira. Também, os frios, que não se acabaram, mas, empalideceram. 

É uma delícia tomar banho de banheira! Depois, desde que a gente não vá sair, um pouco de lavanda não faz mal nenhum. Olho os meus pés. Os dedos estão engelhados e as unhas brancas. Excesso de banho. 

***

Quarta-Feira de Cinzas, de madrugada, a telefonista resolve invadir meu degredo:

– O senhor me desculpe, mas ele já telefonou onze vezes.

– Diga que não estou.

– Mas ele está aqui, ao meu lado, e diz que é urgente.

Claro, era o meu amigo pessimista. Subiu. Estava mais deprimido que nunca:

– Ela me largou, para sempre. Não gostava de mim.

– Mas, criatura, é mais fácil você se esquecer dela do que fazer com que ela goste de você. 

Pensou (de olhos baixos), olhou-me nos olhos, com alguma gratidão e logo quebrou a seriedade do encontro com uma pergunta insólita: 

– Tem baralho aí?

– Não.

– Eu trouxe o meu.

Tirou do bolso o baralho e jogamos mais um pôquer "de mano". Antes ficou bem combinado que quem perdesse e não pagasse era (CENSURADO). Perdi e tive de pagar, para não ser (CENSURADO). 

Agora, está ele deitado no sofá ao lado, roncando. Vestido, como eu estive em sua casa. Os braços arriados. O paletó aberto. Desgraçado, no Ano Bom, perdeu 40 mil e não pagou, agora, ganhou 40 e recebeu. Ah, não. Sem muitos cuidados, fui-lhe nas algibeiras, tirei o cheque de 50 mil, comecei a fazer outro de mil... mas, pensei... Não vou pagar nada, não. Na realidade, eu não sou mesmo (CENSURADO). 

Quando acordamos, fomos comer um resto de frios, com cerveja e, no primeiro copo, ouvi esta comovida besteira:

– Sabe de uma coisa? É mais fácil ela voltar a gostar de mim do que eu esquecê-la.

Levantou-se, saiu e foi para casa dela, onde, na certa, será um grandissíssimo (CENSURADO). Mas tudo, com a graça de Deus.

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Eu tenho um amigo de infância. Por isso, não terei natais, réveillons, carnavais, nada. Mas tenho um amigo de infância. E apesar dos pesares, gosto dele.

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– Estamos muito velhos. Nossas lembranças têm todas mais de vinte anos.

E bebia o champanhe de uma virada só sem se importar com o gosto. Enxugava a boca na manga do paletó e voltava a dizer que estávamos todos muito velhos. A mulher passou, dançando, e lhe fez uma festinha nos cabelos.

– Foi homem ou mulher? – perguntou-me, míope, o amigo de infância. E ficou muito animado, quando lhe disse que tinha sido uma mulher.

– Bonita ou feia? – quis saber, botando os óculos.

– A mais bonita de todas... – disse eu, com intenção de animá-lo. E ele bebeu mais champanhe, pediu outra garrafa, bebeu mais ainda. Mas, a mulher não passou mais. Aos poucos, o amigo voltou à tristeza de sempre, arriou a cabeça nos braços e dormiu. Ainda lhe ouvi a voz desalentada, pela última vez:

– Estamos todos muito velhos.

Cinco minutos depois, a mulher voltou. Tentou levantar-lhe a cabeça, puxou-lhe os cabelos, fez o que podia... e o meu amigo disse, apenas:

– Me deixa, Antônio Maria.

A mulher deu um muxoxo e foi-se embora. Tinha-se desligado do grupo e viera buscá-lo. Não sei para que, nem até quando. Mas viera buscá-lo. Na vida, as pessoas devem estar sempre acordadas.

***

A noite de Ano Bom foi passada na mesma boate. Na mesma mesa. Apesar das juras que me fiz, minha companhia era a mesma: o amigo pessimista. Quando veio o champanhe, encheu o copo e me disse, com certo orgulho:

– À nossa velhice!

– À tua... – respondi eu.

E, antes que ele começasse a falar da idade das nossas lembranças, expliquei-lhe que me sentia mais jovem e mais bem disposto do que nunca. De tarde, tinha nadado quase mil metros e chegara à praia sem ofegar. Meu amigo não discutiu mas bebeu três copos seguidos de champanhe. Um minuto depois, estava suando na testa e me pedia que lhe contasse as pulsações. Não entendo nada de pulso e, apenas, opinei:

– Eu tenho a impressão que você ainda está vivo.

Meu parecer não lhe fez o menor bem, e continuou a dizer que se estava sentindo cada vez pior. Pediu um café. Depois, uma aspirina. Com o guardanapo embebido em água gelada, esfregava a testa, sem parar.

– Vamos, para o pronto-socorro. Estou com um enfarte.

Levei-o. O médico (um jovem) examinou-o dos pés à cabeça e lhe recomendou, simplesmente:

– O senhor está precisando de um psicanalista.

Dito isto, estouraram os foguetes de sempre, anunciando o ano de 1957. Eu e o médico nos cumprimentamos, cordialmente. Meu amigo me abraçou, cochichando dramaticamente:

– É o nosso último abraço.

Saímos. Pediu-me que fosse com ele para o seu apartamento. Eu era o amigo de infância. O único amigo. Fui. Na geladeira havia umas cervejas. Dava. Na mesa de cabeceira, havia um baralho. Claro, jogamos um pôquer "de mano". Ganhei 40 mil cruzeiros. Não recebi. Havia um sofá ao lado. Deitei-me vestido e acordei, exatamente, com o mal-estar de quem dorme vestido. Como é longe a casa de quem dorme vestido, em casa dos outros!

***

No carnaval, prometi a mim mesmo que não sairia de casa. Fiz uma reserva de frios e cervejas. Comprei uns livros policiais e deixei ordem na portaria: "Não estou para ninguém". 

Lia, dormia, tomava banho de banheira, comia, bebia uma cerveja, lia, dormia, tomava banho de banheira... tudo isto, sem o menor compromisso com a luz, o relógio e o carnaval. De vez em quando um baque na rua. Era o acidente de sempre: dois carros que se chocaram, na esquina de Viveiros de Castro com Prado Júnior. 

Nesse trecho do Leme, a vida é sempre igual. Os carros batem, na mesma esquina, muitas vezes, os mesmos carros. Junta gente. As mesmas pessoas que saem dizendo, escandalizadas:

– Nunca vi uma batida tão grande.

São iguais as comidas dos pequenos restaurantes de uma porta só. Iguais as mulheres do trottoir. A polícia é a mesma desde a fundação da cidade. 

No meu livro policial, Maigret está a caminho do sul da França, onde, certamente, descobrirá o crime. Terá que ir a uma pequena ilha, chamada Porquerolles. Gostaria de ir com ele, mas aqui, em meu quarto, vai tudo muito bem. 

Na terça-feira de manhã tive que refazer o estoque de cervejas da geladeira. Também, os frios, que não se acabaram, mas, empalideceram. 

É uma delícia tomar banho de banheira! Depois, desde que a gente não vá sair, um pouco de lavanda não faz mal nenhum. Olho os meus pés. Os dedos estão engelhados e as unhas brancas. Excesso de banho. 

***

Quarta-Feira de Cinzas, de madrugada, a telefonista resolve invadir meu degredo:

– O senhor me desculpe, mas ele já telefonou onze vezes.

– Diga que não estou.

– Mas ele está aqui, ao meu lado, e diz que é urgente.

Claro, era o meu amigo pessimista. Subiu. Estava mais deprimido que nunca:

– Ela me largou, para sempre. Não gostava de mim.

– Mas, criatura, é mais fácil você se esquecer dela do que fazer com que ela goste de você. 

Pensou (de olhos baixos), olhou-me nos olhos, com alguma gratidão e logo quebrou a seriedade do encontro com uma pergunta insólita: 

– Tem baralho aí?

– Não.

– Eu trouxe o meu.

Tirou do bolso o baralho e jogamos mais um pôquer "de mano". Antes ficou bem combinado que quem perdesse e não pagasse era (CENSURADO). Perdi e tive de pagar, para não ser (CENSURADO). 

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– Sabe de uma coisa? É mais fácil ela voltar a gostar de mim do que eu esquecê-la.

Levantou-se, saiu e foi para casa dela, onde, na certa, será um grandissíssimo (CENSURADO). Mas tudo, com a graça de Deus.

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