Periódico
Manchete, nº 415
Publicada também em: livro Homenzinho na ventania, de 1962.

O homem perfeitamente infeliz é leitor fervoroso dos cronicões do Sr. Eugênio Gudin. 

Sua saúde é de ferro; check-up e estação de águas todos os anos; seus males físicos são apenas dois: dor de cabeça (não toma comprimido porque ataca o coração) e azia (não toma bicarbonato porque vicia o organismo). 

O pai e o avô do homem infeliz morreram quase aos noventa anos – e ele o diz frequentemente. 

Banho frio por princípio, mesmo no inverno, e meia hora de ginástica diária. 

O homem perfeitamente infeliz julga-se ameaçado: ao norte, pela queda do cabelo; ao sul, pela desvalorização da moeda; a leste, pelo acúmulo de matéria graxa; a oeste, pela depravação dos costumes. 

Não empresta dinheiro; não deve nada a ninguém; toma notas minuciosas de todas as suas despesas; nunca pagou nada para os outros; não avaliza nota promissória nem para o próprio filho; tem manifesto orgulho disso tudo. 

Não tomou conhecimento de qualquer revolução artística ou literária depois de 22: gênio é o Rui; brasileiro é o Rui; saber português é o Rui. 

Iniciar oração com o pronome oblíquo é para ele um crime contra o idioma pátrio, embora seja esta toda a sua ciência a respeito de gramática. 

Em sua sala de jantar, um quadro a óleo: o ipê florido, moldura dourada, assinatura de Josimar ou Asdrúbal. 

A força de vontade do homem perfeitamente infeliz é tremenda: deixou de fumar há onze anos, três meses, cinco dias. Se não deixou, poderá deixar a qualquer momento.

Racista, embora só o confesse aos mais íntimos; admite vagamente todas as religiões; não pratica nenhum culto, mas considera o catolicismo um freio. 

Sem simpatia política em aparência, vota por instinto nos candidatos mais reacionários.

Antigamente, para ele, era muito melhor que hoje: um dos erros fatais do Brasil foi derrubar Dom Pedro II. 

Acha-se (e infelizmente é verdade) insubstituível em seu trabalho; sem ele, o escritório não anda. 

Sempre o primeiro a chegar a enterros de parentes, amigos, conhecidos, colegas; também o primeiro a saber e divulgar que abriram e fecharam Fulano, não há nada a fazer.

Ver televisão é o seu recreio mental mais importante; resolver problemas de palavras cruzadas desenvolve o raciocínio e enriquece o vocabulário – uma de suas teses preferidas. 

O homem perfeitamente infeliz sabe o que é enfiteuse e pignoratício. 

Conhece os preços de todos os gêneros e de todos os objetos usuais; está sempre de olho em qualquer transação imobiliária lucrativa; se possui imóveis alugados (quase sempre os possui), é mestre em fabricar um contrato desvantajoso para o inquilino; mestre ainda em sonegar imposto de renda; dá aula sobre a maneira mais efetiva de se proceder a uma ação de despejo. 

Sua psicologia: todo homem tem seu preço. 

Economia: poupar os tostões. 

Sociologia: o povo não sabe o que quer. 

Filosofia: o seguro morreu de velho. 

O homem perfeitamente infeliz ama os seus de um amor incômodo ou francamente insuportável. 

Considera-se dono de excelente bom humor; em família, porta-se com severidade, falta de graça e convencionalismo; cita provérbios edificantes e ditos históricos; sua glória é poder afirmar, diante de alguém em desgraça: "Bem que eu te avisei!” 

Arrola, o futebol, o samba e a cachaça entre as vergonhas nacionais. 

Não diz “minha mulher”, mas “minha esposa”; a esposa do homem perfeitamente infeliz é muito mais perfeitamente infeliz do que ele, que nada percebe. 

O mal profundo do homem perfeitamente infeliz é julgar-se um homem perfeitamente feliz. 

paulo-mendes-campos
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