Fonte: Publicada como prefácio do livro As boas coisas da vida, de 1988, de autoria de Rubem Braga, e posteriormente incluída em Mural de Vinicius e outros perfis, de 2000, e O mais estranho dos países, de 2013, duas coletâneas de crônicas de Paulo Mendes Campos.

Afinal numa livraria Saraiva do Morumbi foi merecidamente emplacado, como padrinho, Rubem Braga. Ele costuma dizer que sou eu a coisa mais antiga que conhece; deixa isso pra lá.

Moramos juntos em Copacabana, e nossa esquina vivia cheia de jornalistas que iam entrevistar diariamente o general Góis Monteiro. Nesses tempos, em que bicicleteávamos fagueiros pelos bairros, fomos alunos de um professor de inglês que ignorava a existência de Bernard Shaw, ainda vivo, e muito vivo. O mestre depois caiu na risada ao traduzir, a nosso pedido, um poema de Ezra Pound, no qual o poeta se dizia uma árvore na mata. (Dispensamos seus serviços e contratamos um professor de russo, o Oleg; era mesmo um gelo de trás pra diante.) Às vezes o Rubem me pedia para dizer ao professor inglês que ele tinha saído; o gringo me empurrava com certo vigor disciplinar, subia os degraus da escada e comandava: “Desce, preguiçazinha, não acreditar em mentira de vagabundo”. Mr. Braga descia a esfregar os olhos e começava sonolentamente a dar sua lição de verbos irregulares.

Deitado na rede, armada no gabinete de trabalho, falava de mulheres, da raridade de um cotovelo bonito, de paixões, arrasadoras ou frívolas, mas a conversa acabava quase sempre no mato, onde ele gostaria de viver, caçando, pescando, bestando e dormindo. Uma vez, entrando numa loja pra comprar gravata, sentiu súbita vergonha de estar escolhendo um pano colorido para amarrar no pescoço; nenhuma boate lhe deu prazer parecido ao que sentiu na choupana de um velho caboclo do Acre, onde compartilhou da cachaça e do peixe moqueado do seringueiro, entre vozes distantes de bichos noturnos.

Já antecipadamente cheio das obrigações urbanas, ele suspirava um evasivo verso colombiano: “Trabajar era bueno en el Sur!”. Fechava os olhos e dormia com facilidade, embora às vezes saltasse da rede em transe sonambúlico e começasse a “matar” com os pés as “saúvas” da sala. Nunca deu inteiramente certo seu casamento com a cidade grande.

Nasceu, modéstia à parte, em Cachoeiro do Itapemirim, um ano antes de estourar a Primeira Guerra; cinco anos depois, estava no caramanchão quando alguém falou que o Brasil tinha ganho a guerra contra a Alemanha. No ano do Centenário da Independência assiste a um desfile de archotes e conhece a glória literária, com uma composição sobre a lágrima, publicada no jornalzinho do colégio. Termina o ginásio no Rio, onde inicia o curso de Direito, recebendo o diploma de bacharel em Belo Horizonte. É aí que se revela o jornalista, transformando um assunto sem repercussão – um desfile de cães – numa página graciosa, até hoje relembrada por velhos colegas. Faz a cobertura da Revolução de 1932 pelo Diário da Tarde, e chega a ser preso, suspeito de espionagem, na região do túnel da Mantiqueira.

Daí por diante, a profissão de jornalista encarrega-se de tanger a vocação cigana de RB: “Como Quincas Cigano (seu tio), eu também só tenho caçado brisas e tristezas. Mas tenho outros pesos na massa do meu sangue”.

Foi como jornalista que chegou a São Paulo com vinte anos e trinta mil-réis; como jornalista fundou a Folha do Povo em Recife; como jornalista assistiu à rendição de uma divisão alemã na Itália, acompanhou a queda de Vargas em 1945 dentro do Ministério da Guerra, fez a cobertura da primeira eleição de Perón e da segunda de Eisenhower; como jornalista entrevistou Picasso e outros grandes, ou transfigurou acontecimentos humildes por todos os cantos do mundo, Brasil, Argentina, Chile, Paraguai, Colômbia, Cuba, México, Estados Unidos, Inglaterra, Índia. Quincas Cigano!

A eventualidade do Escritório Comercial do Brasil em Santiago do Chile não apagou o homem de jornal, e ainda como embaixador no Marrocos continuou a mandar crônicas, confessando: “Toda a minha vida enfrentei mais ou menos bem as tarefas que me tocaram, das mais humildes às mais honrosas. Sem brilho e sem fulgor, como diz um velho samba – mas razoavelmente”. Até hoje só não se acostumou com uma coisa: cadeia.

Vinicius de Moraes esboçou seus traços num poema: “Terno em seus olhos de pescador de fundo/ Feroz em seu focinho de lobo solitário/ Delicado em suas mãos e no seu modo de falar ao telefone”. 

Manuel Bandeira, seguramente o mais fervoroso de seus fãs, falava muito sobre “a inefável poesia que é só do Braga, sempre bom e, quando não tem assunto, então, é ótimo”. 

Sempre o vi leitor da Bíblia, do padre Antônio Vieira, de Diogo do Couto, do excelente Francisco Manuel de Melo, de livros esquisitos sobre emas, elefantes, colibris, da lista telefônica e sobretudo de jornais e revistas. Não muito mais do que isso, mas José Lins do Rego, entusiasmado com uma crônica do Braga sobre um pé de milho, uma vez me pegou pelo braço e exclamou bem à paraibana: “Esse homem diz que não lê quase nada mas sabe de tudo!”.

Muito releu também Os sertões, A pesca na Amazônia, de José Veríssimo, e Caçando e pescando por todo o Brasil, de Francisco de Barros Júnior.

Em matéria de poemas, o que mais o tocou foi o “Cântico dos cânticos”, cujos versículos costuma recitar com ênfase entre os íntimos. Não é bom leitor de romances, e o que mais o impressionou foi As aventuras de Júlio Jurenito, de Ilia Ehrenburg, tendo se decepcionado, para indignação de Joel Silveira, com O vermelho e o negro, de Stendhal. Não é de teatro, por horror aos entreatos, e contribui pouco para a bilheteria do cinema, lembrando-se com emoção de Bali, A ilha das virgens nuas, Luzes da cidade, O encouraçado Potemkin...

Não fosse cronista ou poeta-cronista, creio que o velho Braga seria desenhista, uma espécie talvez de Tiepolo de Cachoeira do ltapemirim, de traços apenas sugestivos e líricos. Mas não quis fazer parte da recente exposição de escritores que pintam o sete, na Casa de Rui Barbosa.

Falando num grupo de estranhos, é uma lástima, quase ininteligível, e já fui seu intérprete num bar do Pina, em Recife, até o quinto uísque, quando ele passou a ser entendido somente por Deus.

Mas é uma flor, precisamente uma orquídea que atende pelo nome de Physosiphon Bragae Ruschi, classificada e nomeada pelo naturalista Augusto Ruschi.

Grande escritor. Capaz de transmitir até o lirismo do paladar, um sentido sem maior prestígio poético: “O lombo era o essencial, e a sua essência era sublime. A faca penetrava nele tão docemente como a alma de uma virgem pura entra no céu. A polpa se abria levemente enfibrada, muito branquinha, desse branco leitoso e doce que têm certas nuvens às quatro e meia da tarde na primavera”.

Ao inimitável sabiá da crônica, agora em bronze, envio deste galho seco o meu saudoso e invejoso pio de coruja por este seu novo livro.

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