Fonte: Antônio Torres: uma antologia. Rio de Janeiro, Topbooks, 2002, pp.155-156

A morte do feld-maréchal Von Moltke faz pensar no paradoxo que representará a nossa época para as épocas futuras, se algum dia vingarem as ideias pacifistas. Ainda há quem acredite no ideal pacifista. O Sr. Teixeira Mendes, por exemplo, quando escreve as suas costumeiras cinquenta colunas do Jornal do Comércio, não se esquece de afirmar que o período guerreiro passou, tendo terminado definitivamente na batalha de Lepanto! E mais, que a humanidade caminha a passos de gigante para a realização dos ideais positivistas, um dos quais é a paz! Ainda há, pois, quem acredite nos ideais pacifistas.... Ora, se vingarem esses ideais, em época de futuro muito remoto, a posteridade deve fazer de nós uma ideia muito aproximada da que fazemos nós outros dos nossos antepassados das eras quase primitivas. Que bárbaros, que selvagens, esses avoengos! 

Mas o melhor é não falar mal dos nossos ancestrais. Todas as biografias do conde de Moltke, hoje publicadas, trazem esta frase: “Foi comandante da Escola de Guerra”. Já pensaram na monstruosidade que representa isto ― comandante da Escola de Guerra? Uma escola de guerra é simplesmente um estabelecimento em que se recolhem durante alguns anos centenas de rapazes das melhores famílias do seu país para aprenderem os melhores processos de matar muita gente, de incendiar muitas cidades, de devastar muitas regiões.... E há um cidadão que é nomeado comandante desse estabelecimento, isto é, um cidadão que é mestre na arte de matar, incendiar e devastar! 

Agora pergunto eu: quais os selvagens? Os nossos antepassados, que se guerreavam por instinto, ou nós que temos até escolas de guerra? 

Decididamente estamos ainda muito longe do ideal positivista. Enquanto ninguém sentir horror ao ouvir falar de uma escola de guerra, enquanto acharmos muito natural que um homem seja “comandante da Escola de Guerra”, estará muito distante de nós o aperfeiçoamento que Augusto Comte previu para a humanidade...

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