Fonte: Rio de Janeiro em prosa & verso. Organização de Carlos Drummond de Andrade & Manuel Bandeira. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio, 1965, pp. 283-284. Publicada, anteriormente, em Revista da Semana, nº 41, de 9/10/1954, com o título Noites do Rio.

Segundo o boêmio Bororó que, pelas histórias, deve estar com 80 anos, a vida noturna carioca só foi vida noturna até 1929. Talvez seja um pouco de saudosismo dessa testemunha ocular da história, mas a verdade é a noite murchando nos lugares musicados, numa desalegria que se agrava de ano para ano. Há bares e boates (nunca houve tantos) frequentados, em sua maioria, por homens. Tem-se a impressão de que as mulheres estão ficando em casa, grávidas ou fatigadas, jogando buraco ou biriba, ouvindo Carlos Lacerda ou o crime do dia. Para quem chega, a noite se mostra em atrações assim: Casablanca, com espetáculos montados por Carlos Machado, à base de canções e mulheres bonitas. Vogue, a flor de lapela de Max Stuckart, restrito à voz inteligente de Louis Cole, ao sax tenor de Moacir e ao piano fabuloso de Fats Elpídio. O show da casa é a comida, agora fortalecida por uma nova invenção: peru empanado. Reúnem-se os artistas, poetas e pintores, debatem o suicídio ou o assassinato da semana, esperando o amanhecer para comprar o Diário Carioca no jornaleiro da esquina. Fazem esta maratona, quase que diariamente, Tiago de Melo, Ibrahim Sued, Waldemar e Lúcio Schiller, Fernando Ferreira e ― por que não confessar? Este vosso humilde cronista. No primeiro andar, foi inaugurado o Clube do Cinema, frequentado por moços de topete e braços fortes. Moças louras e morenas, langorosas em sua maioria, candidatas a uma ponta de filme ou a um contrato, na Itália, com o belo grisalho Vittorio de Sica. Foi lá que surgiu essa linda pessoa Julie Bardot, provocando distúrbios neuro-gaúchos em alguns poetas capixabas. Vem, a seguir, a lista dos bares: Clube 36, fundado pelo egípcio Banjo Harbib Guinle, com o perfil de Verônica Beck. La Ronde, com uma portuguesa triste cantando Perseguição. Tudo Azul, onde se canta até de manhã. Le Gourmet, anunciando muito um Geraldo Gamboa. Depois, num beco da Rua Duvivier, acontecem três bares movimentadíssimos: o Bacará, de Gigi, onde Aladir Soares canta aos pinotes; onde se pode arranjar uma briga com certa facilidade; onde ainda se pode ver um par de namorados construindo para a eternidade, no fundo de uma poltrona. Chez Colbert, com a própria e a sua suave Virginia de Noronha, em fados e canções francesas. E, finalmente, o Clube de Paris, onde já tentei entrar quatro vezes e, na porta, fui sempre levado por alguém do Bacará, que disse: “Vem pra cá, que está melhor”. Na Rua Fernando Mendes, janta-se no Bistro e bebe-se no Michel ou no Scotch. Talvez o Michel seja melhor, por causa de Mimi, boa amiga de bons tempos, por causa dos peixes, que fazem ballet de aquário a noite inteirinha. Na Avenida Atlântica, o Maxim’s morre aos pouquinhos, primeiro pela falta de Freddy, depois pela falta de Jean e, finalmente, pelo piano desnecessário que faz parte de uma sala outrora tranquila. Mais adiante, lá longe, está o Farolito. É um bar de bom gosto. Talvez, de todos, seja o mais bem decorado. Lá está o barman Jean, com o seu ar de leigo franciscano, servindo boa bebida, perguntando por pessoas de um velho grupo desfeito, lembrando coisas passadas, distantes, perdidas para sempre. Fui lá com Quitéria Assunção numa noite dessas. De vez em quando, um olhava para o outro e dizia: “Tá bom, não tá”? É este, com as suas naturais imperfeições, o mapa noturno e sentimental do Rio. Acrescente-se o Clube da Chave, com uma festa fabulosa de vez em quando, com as madrugadas onde se pode conversar com Edu da Gaita, ver o casal Catan amabilíssimo e contemplar uma lista dos 50 sócios sobre um pano verde, todos mais ou menos inimigos uns dos outros.

Esse Rio da madrugada ainda tem o seu trottoir da Avenida Atlântica, com mulheres que se vestem de cetim, para realçar as formas num eterno in the mood of love, sem a mínima preocupação política, alheias ao preço do café e à detenção do apátrida Levitsky, em Nova Iorque, depois de 13 meses de viagem no Bretagne. É esta a cidade dos meus anseios e naufrágios. De vez em quando, se a alegria me frequenta, prometo-me, solenemente, viver aqui para sempre, preso às raízes que finquei no chão. Se me desiludo ou me canso, me lembro do Recife (de onde nunca deveria ter saído) e começo a tramar a grande volta à amurada do Capibaribe, aos quintais da Casa Amarela safrejados de mangas-rosa e espada, à rede que me espera no terraço do Espinheiro, aos canaviais tresloucados que ainda poderiam fazer de mim uma criança. 

antonio-maria