Fonte: Cisne de feltro. Organização de Flávio Pinheiro. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2001, pp. 55-57. Publicada, anteriormente, em Manchete, nº 687, de 19/06/1965.

Os mortos que fui governam o homem que sou. Estou deitado, lúcido, impenetrável ao escuro, matéria do sono. Entre imagens incertas, um desmanchar e reatar de contornos, reconheço a paineira talhada na base a canivete, os pórticos sombrios, uma Nossa Senhora azul insulada num monumento de pedra. Há um insípido refeitório de mármore rosado, onde se servia comida ruim e abundante. Uma vez, numa ascese sem virtude, passei mais de um mês a pão e água. Adiante, uma escada de madeira sobe à enfermaria, ao cheiro de doença limpa, aos cuidados dum farmacêutico de voz sedativa. Depois, a capela, o cofre das almas, o confessionário de que costumava fazer longas e recriminadas abstinências, a imagem de Maria Auxiliadora no altar-mor, ladeada de São José e São Luís Gonzaga.

As paredes eram brancas, irremediáveis. Trituro ainda a tristeza desse branco estampado dentro de mim como um céu de cal. Brancos também eram os dormitórios, onde Deus me via. À noite, além do lumezinho vermelho do oratório, eram mantidas acesas duas ou três lâmpadas foscas. Abusei muito de minha vista, lendo sob a iluminação escassa os romances de “visto” impossível.

O casarão ficava no alto, em meia esfera montanhosa, cercada de magras capoeiras. A poucos quilômetros, a cidade velha, as casas caindo de antigas, íamos a Cachoeira do Campo de vez em quando para chupar jabuticabas. As jabuticabeiras imensas eram dos raros encantos que tinham sobrado no tempo antigo, com a igreja barroca, a praça onde Filipe dos Santos foi preso e a filha do sapateiro italiano.

No império, o colégio era quartel. O “quando aqui ressoavam as patas dos cavalos dos dragões del-rei” entrava nos discursos contumazes do Padre Conselheiro como um refrão litúrgico. Do lado de fora ficava o melhor, os eucaliptos, os laranjais, a brisa, o caminho da estação ferroviária. Uma alameda de pinheiros e ameixeiras levava aos campos de futebol, de onde voltávamos ao crepúsculo, extenuados, oprimidos pela saudade de casa, a mais intratável de todas as saudades. Seguiam-se duas horas de estudo, de onde costumava ser expulso para montar guarda à noite, encostado a um dos pilares da arcada.

Havia no meu coração, como no verso de Quevedo, fúrias e penas. Sozinho no pátio, o menino se fazia o aprendiz do silêncio constelado e do espanto. Uma porta batia de repente, uma tosse clerical se ouvia sem que se visse ninguém, passos não sei de quem galgavam degraus não sei onde, rápidos como se os descessem. Seu Vicente, o irmão roupeiro, com seu andar de seriema triste, costumava cruzar o pórtico, apertar minhas bochechas com uma solidariedade algo veemente, e ir-se embora no escuro, sem dizer palavra, embora soubesse um desperdício de línguas. Ele só falava ao amanhecer, quando dava milho às galinhas.

Quando voltei para o segundo ano, não chorei mais. As paciências da melancolia endurecem depressa o coração. A beleza do lugar agravava a minha nostalgia, pois, criança, sofri duma timidez depressiva diante da natureza. No tempo de quartel, isolado no morro, a solidão do prédio talvez estimulasse a brutalidade dos dragões; era uma beleza áspera, boa talvez para soldados de cavalaria. Para nós, pobres almas informes, a desolação só denunciava em nós todos os desapontamentos contra a vida.

Ruim na infância é a incompreensão dos mais velhos. Estes são mais infelizes ainda e sofrem de tédio ao medo, à perplexidade, à agressividade da criança. Decidem do destino infantil com palavras lacônicas, nessa mesma reserva cruel que Deus mantém para com os homens. Há uma razão para tudo: o horror é não sabermos distingui-la, e só encontrarmos alívio na resignação ou no desespero. Assim respondíamos com ressentimento à naturalidade egoísta com que os mais velhos nos viam seguir para o purgatório, onde íamos expiar lentamente um crime que ainda não tínhamos cometido.

Oradores leigos em visita ao colégio vinham dizer-nos que eram aqueles os anos mais felizes de nossa vida. Fremíamos de terror pelos anos futuros. Oradores sacros ameaçavam-nos com as pedras e os espinhos em nossa frente. Fremíamos de raiva. A vida não prestava, era uma tortura. Mais que esse temor, era o inferno que se instalava em nós para sempre, para mim poupando para sempre a alegria, quando, nos patéticos retiros espirituais, suportávamos mais do que a nossa força de meninos calejados, e estalávamos, corrompidos, fracos, pusilânimes, ratos apavorados nas mãos terríveis do Deus vivo.

A misteriosa saudade do colégio é cheia de raiva e desprezo. Estou cada vez mais preso àquele tempo, mas é porque as feridas da idade madura estavam contidas nele, como um câncer incipiente. Para mim, as férias vão terminar a todo instante; e eu volto sempre, a todo instante, ao medo infindável.

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