31 jan 1920

A moda feminina

Periódico
Careta
Publicada, posteriormente, no livro Coisas do reino de Jambon. São Paulo, Brasiliense, 1956, p. 107. Fonte: Toda crônica. Apresentação e notas de Beatriz Resende; organização de Rachel Valença. Rio de Janeiro, Agir, 2004, vol. II, pp. 113-114.

Opinião sobre tal assunto, nunca tive uma qualquer. Acho-as todas morais e imorais. As que desnudam partes do corpo das moças e senhoras, dizem todos serem imorais; as que encobrem severamente essas mesmas partes não o são menos, pois provocam a imaginação dos contempladores das belezas urbanas, a adivinhar aquelas partes, a criá-las totalmente no espírito, com mais força e sedução, o que não os deve levar a pensamentos e desejos muito decentes.

Com mais de trinta anos de idade, eu tenho visto muitas modas de senhoras; e contra todas elas tenho visto levantar-se o clamor dos moralistas. É gente difícil de contentar, esta dos moralistas. A anquinha era indecente, a saia travadinha também, o colete droit-devant idem, o vestido-camisola também, e assim por diante.

É preciso perguntar a esses homens severos e austeros discípulos do senhor Peixoto Fortuna como é que querem que as moças se vistam.

Estou a adivinhar que os figurinos de sua predileção são os que marcam o corte do vestuário, usado pelas irmãs de caridade, do Sagrado Coração de Jesus, etc., etc.

Não os tenho por muito feios, mas os acho um pouco impróprios para o nosso clima. Podiam ser feitos com fazenda mais leve, mas... lá vem a tal mistura de moralidade!

O manifesto que a celebérrima Liga pela Moralidade deitou atribui à indecência dos atuais trajes femininos a diminuição dos casamentos.

Não vejo por quê. Em toda transação comercial, e o casamento sempre foi isso, é de hábito pedirem-se amostras das mercadorias a vender. Não é verdade?

A liga do senhor Fortuna não quer isso, tem a ingenuidade de ignorar verdade tão reles.

Na sua linguagem sincera e eminente (é próprio, o adjetivo), como qualifica o jornal de que me sirvo, o estilo do manifesto, logo no começo, diz textualmente: “Não basta ser casta e honesta, é também necessário parecer ser.”

Está aí uma doutrina bem curiosa em católicos militantes e praticantes.

Dela se conclui que o “ser” não é o essencial; o “parecer” é o indispensável.

Até agora dizia-se que o hábito não fazia o monge; agora, com a doutrina da liga do senhor Peixoto, é o contrário: todo aquele que tiver um hábito em regra há de ser um perfeito monge por força, mesmo que faça, por aí, das suas, às escondidas.

Isto tem um nome muito duro que eu não quero pôr aqui; e os que são pecadores de semelhante vício moral, Dante, no seu Inferno, condenou-os a usar um capote de chumbo.

Essa história de “conquistadores” não pode ser argumento contra a moda atual. Seja ela como for, até trancando as damas em cofres, depositando-as no fundo do mar, como fez aquele gigante das Mil e uma noites, não há meio de impedir a missão dos “leões”, senão a vontade das próprias mulheres.

O mais engraçado é que o manifesto acusa os “judeus” de inventar essas e outras modas; entretanto, passo na Casa Sucena, cheia de imagens e registros de santos, rosários, livros de missa, crucifixos, dalmáticas, sobrepelizes, etc., etc., etc., e lá vejo também amostras dos vestidos excomungados — como é isto?

Não aceito a definição da moda que o manifesto dá. “A moda de hoje”, diz ele, “pode definir-se: um tecido de imodéstia, debruado de pecados!”.

Por que “de hoje”?

Sempre foi isso; sempre a moda foi isso, desde a Grécia até os dias atuais, desde a stéphané até os chichis e o droit-devant,

Nunca ela escolheu tecidos modestos, nem teve por fim outra cousa senão acrescentar ou realçar a beleza das mulheres, segundo o gosto do tempo e lugar, atraindo-lhes a admiração dos homens.

Tem variado, é verdade. Mas nada neste mundo é mais variável do que o critério da mulher bela. Cada idade, cada século, cada país, tem um seu próprio; e varia com a moda do vestuário do sexo fraco e esta com aquele. Um é função da outra e vice-versa. Deixemo-nos cá de histórias! Deus quer o que a mulher quer, como lá afirma o conhecido brocardo francês, que vai em português para não melindrar os grêmios nacionalistas que há por aí. “Amo tanto, estremeço esta terra...

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