Fonte: O saltimbanco azul. Rio de Janeiro, L&PM editores, 1979, pp. 133-135.

Domingo a babá vai namorar na pracinha, a cozinheira vai visitar a mãe no subúrbio, e as crianças ficam entregues aos pais, que não sabem o que fazer com esses diabinhos. Deve ser bem difícil, por exemplo, ler o jornal da manhã no meio daquela gritaria. O que me deixa, domingo, feliz: não tendo filhos, é banhado em fanfarras e órgãos que saboreio a minha ração diária de sustos, apreensões e esperanças.

No princípio da tarde vou a um restaurante e me sento na varanda. Peço uma Coca-Cola. Observo as menininhas que passam, vindas da praia. E também, numa janela, o namoro de dois adolescentes. Ela é também minha namorada, mas só na extremidade do impossível. De vez em quando senta-se comigo e se queixa da vida.

— Ah! Eu não aguento mais... 

— Que é que você não aguenta mais? 

— Não sei.... Nada.... Tudo...

Quer estabelecer entre nós uma relação romântica, ligeiramente artificial. Propõe dificuldades existenciais imaginárias e espera de mim uma solução mágica. Depois vai namorar na janela com o rapaz louro, e de vez em quando me dá adeusinho. Ela já é mulherzinha: um bibelô-mulher. Por fora está toda pronta para enfrentar a condição feminina, e por dentro é um caos luminoso. Ao passo que ele, o louro, talvez um ano mais velho, é menino por dentro e por fora. Daí resulta uma certa crueldade da parte dela, que alardeia uma segurança e experiência que está longe de possuir; enquanto o louro se considera inferior, inexperiente, de modo que vive ralado de ciúmes.... Hoje ele admite o meu namoro à distância com sua namoradinha. Se não admitisse, ela o acusaria de estar por fora, de ser um consumado boboca.

As crianças invadem a minha solidão. Duas meninas, uma loura e outra morena, e dois meninos. Sentam-se comigo. Pedem Coca-Cola. A moreninha tem uma caixa de passas americanas. Adoro passas americanas. No meu tempo só se comiam passas americanas quando os navios de guerra americanos se abriam à visitação pública. A gente via os canhões, descia e subia as íngremes escadas, e depois ganhava passas americanas, pipoca enlatada e leite condensado. As passas deviam ser comidas uma a uma. Era um luxo.

Apanho a caixa da moreninha e tiro uma passa. Apenas uma: devolvo a caixa. Ela abre a minha mão e verifica que realmente só foi uma que tirei. Penso que ela também está fazendo durarem as passas na caixa, comendo uma a uma.

— Vai começar a guerra da bagunça! — Grita então a lourinha. E de fato começa. As quatro crianças, cada qual com uma garrafa na mão, se bombardeiam mutuamente com esguichos de Coca-Cola. Sobre as mesas, as toalhas brancas rapidamente ficam imundas.

— Vocês estão sujando todas as toalhas, crianças — advirto eu, mas não tenho cara de autoridade. A lourinha responde: “Lá dentro tem mais”. — Mas vocês estão desperdiçando muita Coca-Cola, e isso custa dinheiro — continuo eu. “Papai paga”, responde a morena.

Elas e eu estamos na varanda. Os pais, no interior do restaurante, ignoram solenemente a guerra da bagunça. Já não havendo Coca-Cola, os quatro monstrinhos empunham saleiros. Uma chuva de sal embranquece as quatro cabeças e a minha também. Um menino preto entra para pedir esmola e ganha também seu quinhão de sal.

Alguns saleiros se quebram; algumas garrafas se quebram. As crianças estão cada vez mais excitadas. Lembro o grafito encontrado na parede de uma crèche sauvage, em Paris: “Os pais são tigres de papel”. Como é que, futuramente, vamos controlar essa infância que não respeita nada?

Aconteceu, em dado instante, algo que machucou meu coração. A moreninha jogou na cabeça da lourinha a.caixa com passas. A lourinha se desviou e a caixa caiu na calçada, espalhando umas duas dúzias de passas americanas. Lourinha e moreninha logo esqueceram a guloseima, recomeçando aquela guerra típica de uma sociedade de consumo.

Mas eu olhava as passas esparramadas. Tudo o que eu queria, quando menino, era trincar uma delas, entretê-la sobre a língua, engoli-la. Se por descuido deixasse cair uma só que fosse, imediatamente a recolheria no chão para mastigá-la devagarinho. E agora ali estava, no chão: — tudo o que não tive.

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