Fonte:  coluna "Jornal de Antônio Maria", Última Hora,  de 31/05/1961.

Ouça a crônica de Antônio Maria na voz do cantor e compositor Bruno Cosentino.

Pontable era um engenho de pouca safra. Não dava mais que duas ou três mil toneladas de cana. Mas, era bonito. Do terraço da casa-grande, a gente via o cercado, que não acabava e, depois, fazendo horizonte, o rio Serinhaem. De um lado e do outro, lá nas alturas, a mata. Bom fazer viagem de carro de boi, por dentro da mata, até o Engenho “Alto”, do nosso tio Pedrinho Moraes. Mas, a gente só ia uma vez no ano, três, quatro dias antes da festa de São Pedro, que era para não banalizar a viagem. A família toda, as empregadas, os gatos da casa, um papagaio. Saía-se com o dia ainda apagado, viajava-se quatro horas na sombra e, quando se via, a luz explodia na boca do Engenho Alto.

Isto acontecia na época mais fria do ano. Apesar do sol, o mês invernoso era frio. Ou então, em ano de “cheia” chovia 15 dias e só parava quando se fazia a novena a Santo Amaro. Era a coisa melhor que havia, viajar de carro de boi por dentro da mata. Com sombra e frio. Com alegria.

Outro prazer que a gente tinha. Ir às missas dos domingos, em Gameleira. Atravessava-se o rio de balsa, com carro de boi e tudo. Era difícil arrumar aqueles dois na balsa. Mas, balsa não vira. Afundava meio palmo, medido na canela dos bois, e chegava do outro lado, sem perigo. Mesmo assim a gente morria de medo que fosse tudo para o fundo do rio, onde contavam que morava uma cobra da grossura de uma barrica e do tamanho do “trem das sete”. O trem das sete era grande. A locomotiva, quatro vagões de passageiros e três de carga. O tamanho maior que havia. O tamanho da cobra, que morava no fundo do Serinhaem.

De noitinha, lá uma vez perdida, havia música no terraço. Uma harmônica, um triângulo e uma viola de doze cordas. O rapazinho do triângulo cantava com uma voz presa no peito:

“Acorda Linda, vem ver
Acorda Linda, vem cá...
Se é bonito, tem que ver...
Dois navios correr no mar”...

A maioria daquela gente nunca tinha visto o mar. Com a exceção das empregadas que iam e vinham, conosco, duas vezes por ano, ao Recife, ninguém tinha visto ainda o mar. O cocheiro perguntou um dia ao meu irmão:

― O mar é só de água ou tem plantação dentro?

Meu irmão explicou, como pôde, o que era o mar. E o homem, depois de entender, quis saber mais:

— Mas esse mar que passa lá no Recife pertence à usina ou é do governo?

Depois de jantar com o meu parente Cícero Dias, do Engenho Jundiá, pensei horas nessas coisas. Cícero veio de Pernambuco, de Jundiá mesmo, onde ficou o mais que pôde, pescando traíra no riacho e dormindo na rede do terraço. Quem é de engenho, pode passar 50 anos sem voltar. Pode ficar em Paris, em Nova Iorque, onde for... Quando volta sente que não desacostumou. O corpo descansa onde deita. A boca fica feliz de tudo o que come. O olhar se acende em tudo o que vê.

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