Fonte: Cadenno B, Jornal do Brasil, 15/11/1969.

Conheci a menina quando estava com 14 anos. Agora, tem 18. É bonitinha, miúda. Separada do marido, a mãe trabalhava para dar à filha um padrão Zona Sul: bom colégio, conforto, roupas moderninhas, mesada para o Bob’s.

Finalmente apareceram os hippies. A menina gamou por um deles. Enturmou; entrou no embalo. A pobre mãe — estou exagerando: ela estava achando aquilo bastante divertido — a pobre mãe teve que jogar fora tudo o que havia aprendido para enfrentar a nova situação. As informações que tinha sobre os hippies eram as piores possíveis, quer dizer, as mais insólitas possíveis. Primeiro: roupas extravagantes. Segundo: tomar banho dia não, dia não. Zanzar sem destino, dormindo na areia, no mato, na estrada, nas delegacias e conventos do interior. Quarto: ganhar o pão sem suar o rosto. Quinto: puxar fumo. (Este item lhe parecia o mais assustador. Com jeito, sem bancar a quadrada ela procurava explicar à filha as consequências do vício. Mas qual: a juventude moderna acha que tanto faz puxar como não puxar fumo.) Sexto: amor livre. Assim já era demais.

Esse problema se dividia em dois, ambos insolúveis. Para começar, a mãe gostaria que a filha perdesse a virgindade de forma legal. Mas vá lá: com a pílula, com a crise do casamento da qual ela própria era exemplo e vítima, e principalmente com o divórcio fora das cogitações governamentais, seria possível admitir uma primeira experiência sem maiores compromissos. Mas amor livre também quer dizer que ninguém é de ninguém, que a garota (a sua garota!) poderia passar a qualquer momento para os braços de outro, e de outro, e de outro...

Ela fez o seguinte: simplesmente deixou o barco correr. E o barco foi correndo. Um dia, chamou a filha:

— Se vocês querem viver juntos, acho melhor que se casem. Ou então desapareçam.

Para surpresa geral, os dois se casaram. A lua de mel foi na casa da sogra. E lá continuam até hoje, só que em comunidade. Onde dormem dois, dormem dez. No pequeno apartamento (não é tão pequeno assim) amontoam-se agora dez hippies. A sogra faz o que pode para alimentá-los.

— Eles são generosos — diz ela. — Dividem tudo. Ninguém fica sem comer, ainda que todos tenham que comer pouquíssimo.

Atualmente ela está correndo agências de publicidade e estúdios fotográficos. Descobriu que os hippies são antes de tudo fotogênicos, e que para eles se volta a atenção do público. E assim pretende unir o útil ao agradável, transformando-os todos em modelos para anúncios e reportagens sobre moda.

jose-carlos-oliveira