Fonte:  Caderno B, Jornal do Brasil,  29/12/1976.

Entre meus olhos e o papel, um rostinho. Ela, a encaracolada, gorduchinha. O umbigo enroscado  na barriga nua, as pernas que se erguem sólidas do chão para a fralda. Dois dentinhos na gengiva, em cima, um dentinho embaixo. Seus olhos, que me fitam sobre as bochechas macias, pensam apenas o pensamento de que me andam a fitar. E cresce — onde? — cresce, já será outra, já dirá olhando a lâmpada: "luz, luz", já tropeçará na grama, derrubada pelo próprio ímpeto recém-acionado. O cheiro da grama queimada de sol, o gosto da terra; cresce, aprende, machuca o joelho. Desembarca do carrinho em que vinha sendo empurrada e passa a empurrar o carrinho por conta própria. Está solta, autônoma, cada dia mais ela mesma e mais ninguém. Cheirosa mistura: leite, sabonete, talco. Dança quando há música; depois dança sem música; o ritmo do corpo segue agora as reverberações invisíveis, ela já guarda abstrações na memória. Coleciona o mundo. Faz xixi observando a urina que se desfia na perna e pinga no soalho. E cresce; ela cresce. Senta no urinol, abre e fecha a torneira ao tomar banho. Acorda acordadíssima, com pressa de estar viva — e confere: o mundo cá está, não era um sonho; todo santo dia nasce da escuridão.

Mais ou menos dois anos de abismo após essa imagem gorducha, afável, mansa, impetuosa, sonolenta na cadeira de balanço, a dizer desdentada luche... l u c h e (luz! luz!) — apato... apato... (sapato! sapato!) — mamã... mamã... (mãe! mãe!) — papá... papá... (pai! pai!) — dois anos depois, ali está, estranha, diante do homem sentado na cadeira de balanço. Encorajam-na: "É papai. Dá um beijo em papai". Ela beija sem graça, e se afasta, e do fundo do abismo em que foi mergulhada, contempla aquele homem que lhe lembra não sabe o quê, a cadeira que balança igual a — o quê? — os quadros na parede, o aposento suspenso num odor sagrado de cigarro e silêncio. Já esteve ali, sem dúvida; mas quando? Ele sopra a fumaça para o alto (assim fazia quando a tinha no colo, para não tonteá-la) e ela oscila numa vertigem de onipotência, como se houvesse previsto esse gesto. "Vai, vai, meu bem", ele murmura, abraçando-a por cima do abismo. "Rosemere, vocês podem ir", diz ele, e a babá vem pegar a menina. Está linda, essa menina no seu casaco vermelho, a calcinha da mesma cor aparecendo. Suas pernas emagreceram e alongaram. "Chao, chao", diz ela a mando da babá, abanando a mão direita.

Curioso. Escrevi e passou. Esfumou-se a outra, que aqui esteve ainda ontem, e prevaleceu a antiga, primeira e única. Vejo as palavras no papel através do seu rostinho. 

Essa é só minha e não crescerá. Se uma lágrima pingasse agora do meu olho, ela desceria na lágrima, dentro do balão iridescente, e se desmancharia numa aba do nariz; mas outra igual persistiria na superfície do olho, indiferente ao movimento da pálpebra. Desde que a perdi, observo o mundo através dela. Na rua, todas as crianças que passam por mim são vistas através dela. Seria a minha janela para a doçura? Decerto. Mas é também um travo quando anoitece e vejo a fogueira consumindo a tarde por cima do mar. Nessas horas admito amargurado que, crescendo, ela me traiu. O tempo ilude uns, a outros desilude; ela avançou e ainda segue — e eu fiquei lá, na contradição: inconformado e fiel. A quantos cristais tem direito um homem ao longo da vida?

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