Fonte: Caderno B, Jornal do Brasil,  7/02/1975.

Ele sentou, bebeu cerveja, fumou, comentou que estava fazendo calor, trocou a cerveja por um daiquiri duplo, e desfiou sua linguagem interior, não secreta, não inconsciente,  e sim elaborada em clara consciência, mastigada, ruminada, enfeitada — a obra de arte conceitual que surpreendera no fundo de Deus sabe qual sofrimento, e que trazia na ponta da língua, e que agora desfiava para meu deleite, e que eu distraidamente, quase sonolento, ia escutando e mentalmente colocando entre aspas. Foi assim:

"A mulher de nossa vida existe e é inesquecível, mas nem sempre temos a ventura de fazer dela a nossa mulher. Em São Paulo, por exemplo, uma noite, depois de uma festa, Ferdinando Rodrigues e eu fomos beber cerveja no apartamento da mulher da minha vida. Era morena de olhos negros, cabelos negríssimos entrançados. Entre nós o amor nasceu instantâneo e avassalador, se bem que ela estivesse apaixonada por um violoncelista, além de ter viagem marcada para a Europa nos próximos dias.

Quando amanheceu, deixamos Ferdinando no apartamento e fomos os dois de mãos dadas, ela e eu, ao mercado das flores. Eu lhe dei uma rosa vermelha que ela enfiou nos cabelos negros, sobre a orelha direita. Era uma cigana ou uma fatalidade, ou as duas coisas. Entre nós não havia pressa. Nosso amor era anterior àquele encontro e nos parecia imortal por definição. Ela fez confidências sobre o violoncelista; eu lhe falei de Moema Batista, que me esperava no Rio, a doce Moema que eu amava como você pode amar um sorriso surpreendido em pleno voo no meio da multidão apressada. Depois disso peguei um avião e voltei ao Rio. Soube mais tarde que ela viajara para a Europa. O violoncelista também.

Agora preste atenção. Aquela mulher é a minha mulher. Era cinco ou seis anos mais velha que eu (minha idade rolava pelos 26), extremamente sofrida, rica, viajada, culta e de certo modo sinistra. De certo modo fatal, era a minha morte, não sei se você me entende. A minha viúva. O meu destino de macho e menino. Aquela que vinha insinuada no meu horóscopo e nas linhas de minha mão, tão inevitável quanto serem os nativos de Leão propensos a arrebatamentos inexplicáveis.

Todos esses anos se escoaram sem novo encontro, e contudo eu permaneço na crença inabalável. Creio que em alguma aldeia tcheca ela também cultiva a minha imagem e sabe que nascemos um para o outro. Ou então morreu num desastre de automóvel, na autoestrada que passa ao pé da cidade de Colônia, tornando-me eu neste caso um viúvo, não direi inconsequente, mas inocente até o fundo da alma. 

Pois bem. Há dois dias, nem mais nem menos, aquela mulher surgiu no meu caminho. Não era a mesma; mas, de certo modo, era a mesma. Você me entende? Eram cinco horas da tarde e eu rolava no fundo de um táxi. Um sinal vermelho nos amontoou a todos, automóveis, motoristas e passageiros, na esquina de Copacabana com Princesa Isabel. Eu estava distraído, olhando a calçada do lado direito, onde ia andando uma garota nuinha dentro da tanga. Estava apreciando as pernas da menina quando senti um olho pousado na minha nuca.

Voltei a cabeça e pude surpreendê-la. Devia ter 35 anos e também usava negras e grossas tranças, delicadamente pousadas em seu ombro direito, leves como o rabo de um gata. Estava ao volante de um carro e, naquela pausa do sinal vermelho, me olhava.

Não sei se você me entende. Quando voltei a cabeça, surpreendi aquela mulher olhando como só a mulher que ama sabe olhar. Eu era o homem de sua vida, e isto estava escrito em letras garrafais nos olhos dela. Em dois segundos nos fitamos; nossos olhos estavam quentes, profundos, fatais. Não era a mesma de São Paulo (e nem eu era mais o mesmo), e contudo era a mesma (e eu também).

O sinal abriu; nossos caminhos novamente se desencontraram. Lá se foi ela pensando em mim, e cá estou eu pensando nela. Será que você me entende?".

jose-carlos-oliveira