Fonte: Jornal do Brasil, 13/06/1961.

É muito bom imaginar que a infância é bela, principalmente se você teve uma infância feliz. Porém não exageremos. Há crianças lindas que vão aos parques com suas babás e quando choram vem toda a família para saber o que está acontecendo. Há crianças que de repente ficam doentes e nunca mais saram: essas ficam então num quarto, eternamente isoladas, sem ver o sol. Outras crianças sofrem porque os pais não se entendem, ou porque os adultos não a compreendem. Tantos exemplos, por demais conhecidos, servem para lembrar que o problema é muito complexo e variado. A simplificação é sempre injusta. 

E além do mais, há crianças e há menores. Criança, em minha opinião, é com menos de 14 anos. Daí por diante, é menor. Pois bem. Um bando de transviados anda agora promovendo noitadas violentas em algumas boates— e o juiz de menores fez o quê? Decretou simplesmente que doravante vai apanhar qualquer menor que estiver na rua de noite. Os transviados, os abandonados, os vendedores de amendoim e os engraxates. Note bem: os transviados é que andavam fazendo bagunça, mas todo mundo vai pagar por isso. Esses rapazes das motonetas chegarão à delegacia com seus pais e advogados, serão postos em liberdade e no dia seguinte voltarão à farra. Os abandonados, aqueles meninos que dormem nos bancos de parques porque não têm casa, irão para o Sam. Tudo, de certa forma, justo. Mas os vendedores de amendoim, como o da foto, e os engraxates, não merecem esse castigo. Eles ganham a vida com o trabalho honrado. São pequenos operários. Há muita gente que gosta de amendoim e quase todo mundo precisa engraxar os sapatos. Eles são úteis à sociedade. Quem vende amendoim não precisa roubar para comer. 

Quem engraxa sapatos não precisa virar pivete. Deixemos em paz os pequenos operários. Eles se organizaram para sobreviver nesta cidade que é tão injusta para com os meninos. Eles descem dos morros com suas latas e seus pacotinhos. No fundo da lata há um fogareiro sempre aceso, para que o amendoim esteja sempre bem torradinho. (Sei bem como são essas coisas, porque já vendi amendoim). Ou então aparecem com suas caixas de madeira e graxas e escovas, para que nossos sapatos estejam sempre impecáveis. Não está certo que saia uma carrocinha atrás deles, só porque os filhinhos de papai fumaram maconha demais ou beberam uísque além da conta.

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