Fonte: Uma fada no front, Porto Alegre, Artes e Ofício, 1994, pp. 145-147.  Posteriormente publicada em reedição da Record,  de 2002, sob o título "1939-Um episódio em Porto Alegre".

Discutir com adjetivos é muito fácil. Eu chamo você de feio e você me chama de antipático. Podemos ficar nisso a vida inteira, trocando adjetivos. Mas na vida não há só adjetivos. Há também fatos, fatos substantivos, fatos concretos. Se eu alego fatos e me respondem com adjetivos, tenho o direito de dizer que não me responderam. Podem me chamar de tinhoso, de feioso, de infame: isso são adjetivos, não são respostas. Tenho escrito aqui algumas coisas a respeito de índios. Tenho apontado fatos. São fatos provados e comprovados em documentos oficiais, documentos dos quais tenho em meu poder cópias enviadas pelo Serviço de Proteção aos Índios do Ministério da Guerra. Não vou repisar o que já disse. Vou apontar outros fatos. Se alguém quiser discutir que os discuta, provando o contrário. Vamos ver um fato no meio dos outros.

Em 1932, a missão salesiana de Mato Grosso solicitou o pagamento da subvenção consignada no orçamento do governo federal. Apresentou então documentos comprobatórios da aplicação dada ao auxílio que lhe fora concedida no ano anterior. O funcionário do Ministério que deu parecer sobre o caso achou que “as contas estavam certas, devidamente seladas”. Outro funcionário deu também parecer favorável e os papéis subiram ao ministro. O ministro despachou assim: “Ao Departamento de Povoamento para, ouvindo o seu delegado no Estado, informar. Rio, 28-4-32 — Salgado Filho”.

Agora tenham a fineza de ler com a devida atenção o informe prestado pelo Inspetor Regional do Estado, em telegrama:

“Comunico-vos que as faturas constantes do processo D. N. P., número 2.421 são falsas. Consoante comunicações da Associação Comercial do Tesouro do Estado, da Prefeitura Municipal e da Delegacia Fiscal, não existem nesta praça as firmas Gabriel Mattos, Orlando Irmãos e Berbiere & Guerrize.

Existem sim, Orlando Irmãos & Cia Ltda, Guerrize & Barbiere e Gabriel Francisco de Mattos, firmas estas que comunicaram à Inspetoria não haver vendido as mercadorias constantes das aludidas faturas apresentadas pela missão salesiana, bem como não terem dado procuração a José Pacheco, José Gomes e Antônio Pio para assinarem documentos em nome das firmas respectivas. Documentação segue pelo correio”.

Eis aí. Os “documentos comprobatórios” da aplicação dada ao auxílio concedido no ano anterior, isto é, as “contas certas, devidamente seladas” eram feitas em faturas impressas com nomes de firmas parecidas com as firmas realmente existentes em Cuiabá. Essas faturas eram assinadas por pessoas que não tinham procuração de ninguém para assinar coisa alguma.

Eis o fato: os missionários salesianos mandaram imprimir faturas de firmas imaginárias e fizeram contas imaginárias de imaginários fornecimentos. O que não era nada imaginário era o dinheiro recebido no ano de 1931, qualquer coisa parecida com 45 contos. Para onde foi o dinheiro? Foi gasto em compras a firmas inexistentes...

Aí fica um fato concreto. Desmintam-no, se puderem. Eu, por mim, terei grande prazer em publicar aqui um desmentido provando que esses padres não fizeram isso. Alego fatos. São fatos sérios. São fatos graves. Por que não são eles discutidos? Por que ao invés de discuti-los preferem me chamar de “zoilo”? É um engano pensar que o público se ilude com isso. Escrevo para gente que tem cabeça em cima do pescoço e pensa com essa cabeça. Deixo aqui uma acusação concreta. Não estou dizendo que os padres são feios ou bonitinhos. Estou dizendo e afirmando e provando que tais missionários salesianos fizeram isso assim, assim. Em torno de fatos, sem adjetivos, qualquer assunto pode ser discutido serenamente. Por que, ao invés de discutir um fato, fazem gritarias de manchetes e rodapés, de títulos e subtítulos?

Em resumo: alego um fato e digo a fonte em que o fui buscar: não pretendo ser dono de nenhuma verdade absoluta. Não aceito dogmas. Pessoas de boa-fé podem discutir qualquer assunto objetivo com toda a clareza. Por que me bombardeiam de adjetivos e não mostram nem um argumento sequer? Onde está o dinheiro?

rubem-braga