Fonte: Benditas sejam as moças: as crônicas de Antônio Maria, Civilização Brasileira, 2002, pp. 21-22.  Publicada, originalmente, no jornal Última Hora, de 19/06/1960.

A gente não imagina que haja ainda quem seja capaz de contar certas coisas e pedir determinados conselhos. A experiência do viver, tranca o homem, cada vez mais, em si mesmo, aconselhando-o a sarar, sozinho, todas as escoriações da alma.

Pois bem, não faz uma semana e um amigo pouco íntimo (desses que a gente chama de amigo porque a palavra CONHECIDO não quer dizer nada) veio fazer-me essa confidência de antiquíssimo modelo: ao chegar em casa, fora do horário habitual, encontrou a mulher e o vizinho… Nessa altura, reticenciou a narrativa, desejando, certamente, que lhe perguntasse COMO e ONDE. Tal pergunta não lhe foi feita, obrigando-o a dizer que estavam os dois sentados à mesa de jantar, tomando café, com queijo. Daí por diante, travou-se, entre nós, o seguinte diálogo:

– ELE: Você, o que acha?

– EU: De quê?

– ELE: De estarem, os dois, tomando café com queijo?

– EU: O queijo é mais grave que o café, porém nenhum dos dois quer dizer nada – E tentei explicar-lhe que oferecer café é uma simples cerimônia, enquanto café com queijo já passa a ser intimidade.

– ELE: Que devo fazer?

– EU: E os cinzeiros?

– ELE: No dela, oito pontas; no dele 14.

– EU: Havia ponta de cigarro dele no cinzeiro dela e vice-versa?

– ELE: Acho que não. Tenho a impressão que não. Certamente, não.

– EU: Então, não há gravidade de espécie alguma, porque está provado, que fumaram muito, o tempo inteiro, distantes um do outro, cada qual com seu cinzeiro.

Nessa altura, começou a falar sem fazer-me seu alvo, isto é, começou a pensar, com palavras. Considerou a quebra de confiança, advertiu-se da beleza física do vizinho, blasfemou contra as mulheres em geral, até que, falando realmente comigo, suplicou:

– ELE: Eu lhe peço que você me diga, exatamente, o que está pensando sobre o caso. Use de toda a sua franqueza.

– EU: O vizinho vai muito à sua casa?

– ELE: De vez em quando, telefonar.

– EU: Não há motivo para menor desconfiança. Foi telefonar e, como há alguma intimidade, conversaram.

– ELE: Durante muito tempo?

– EU: A conversa durou, exatamente, 14 cigarros deles e oito de sua mulher. (PAUSA) Ela ofereceu-lhe um café e, lembrando-se que havia queijo, ofereceu-lhe uma fatia. 

– ELE: Mas o queijo foi ele que trouxe.

– EU: Então, já não está mais aqui quem falou.

antonio-maria