Fonte: Vento vadio: as crônicas de Antônio Maria, Todavia, 2021, pp.344-345. Publicada, originalmente, no Diário Carioca, de 09/05/1953.

Fecharam-se, por dentro, num apartamento de quatro peças: quarto, sala, cozinha e banheiro. Faltava água desde 1944 e as pias estavam cheias — a banheira também — de uma água feia, amarela, que havia de servir para o que desse e viesse. Embora as folhinhas não tenham a menor importância, era 28 de abril e o relógio, consultado pela última vez, marcava sete horas — devia ser da manhã, porque quando entraram a rua estava clara. Lá dentro, tudo escuro e seria silencioso se os palavrões da calçada, um por um, não viessem tanto pela janela. Os dois se trancaram e como um cabia tão bem no abraço do outro, não podiam adivinhar se sairiam vivos. Estavam enlaçados e o curto espaço que, de quando em quando, acontecia entre suas bocas era ocupado por palavras pequenas, de amor, de ternura violenta, de consagração àquele glorioso instante, de insensatez que fosse. Podiam levantar, fazer café, esquentar leite, tomar com pão e manteiga. Mas, por quê? Para quê? Se essas horas não têm regência sobre nenhuma fome, compromisso com nenhum relógio; se o tempo pode existir, perfeitamente, sem precisar dos números, das sinetas, dos floreios musicais dos carrilhões. Por acaso, existe coisa mais humilhante para o tempo, que é uma coisa inteira, do que o grito velhaco dos cucos, de 15 em 15 minutos? Deviam proibir o uso e a ditadura dos relógios e cada um faria suas horas como bem entendesse. Hora boa, hora bonita, podia ter 120 minutos, 160. Hora mesquinha, se não fosse possível passar por cima, a gente engolia para dez, 15 minutos. Mas assim a Suíça ia ficar sem importação e morreria de fome. Não. Só o turismo de tísica dá para a Suíça viver, folgadamente, sem a menor apreensão quanto aos saltos do dólar. Pensadas estas coisas tão puras, com um tamanco os dois espatifaram o despertador e um relógio antichoque. 

A escuridão do quarto nada tem a ver com a luz da rua. Será sempre a mesma, dia ou noite, se ninguém abrir a janela. O ar está cheirando a saliva. O cinzeiro é um sintoma de nervosismo, avidez, hesitação — cigarros apagados, com apenas meio centímetro de uso. E os dois ignorando toda a história da civilização, a geografia do pós-guerra, as raízes quadradas, os nomes genéricos dos frutos e a partitura do "Pássaro de Fogo”, outra coisa não fazem senão carinho. Ambos fracassariam se perguntassem: “Afeganistão, capital...?”. Se ao menos soubessem o nome do ministro da Fazenda. O mundo sem nomenclatura, sem pontos de referência, volta a uma teimosia da meninice: deve ser plano e parado. 

Agora, seja que hora for, é lassidão e saciedade. Telefonar para um lugar qualquer, perguntar o dia, o mês e a hora. Resposta: 30 de abril, cinco horas da tarde. Os braços são trapos pendurados nos ombros, as pernas estavam esquecidas de quanto pesava o resto do corpo. Ela abre a porta e mostra o hall do edifício. Os dois se fitam e, embora não tenham coragem de confessar, se odeiam.

Última conversa. Ele pergunta: 

— Até quando? 

Ela responde: 

— Podemos nos ver, casualmente, uma vez por ano.

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