Fonte: O luar e a rainha, Companhia das Letras, 2005, pp. 35-36. Publicada, originalmente, no site da BBC, em 27/03/2000.

Agora que já se sabe o nome do novo presidente da Rússia e o nome da moça que ganhou o Oscar de coadjuvante feminina, o mundo já pode ir dormir um pouco mais descansado. Parece também que ninguém tinha dúvida de que a cobiçada estatueta iria para o aliás excelente – ator Kevin Spacey, por seu desempenho em Beleza americana, filme que, este ano, arrebanhou os prêmios principais. Não há mais ninguém civilizado que não tenha visto o filme ou que, ao menos, não saiba do que se trata. Um americano classe média típico entra em parafuso psicológico bem no meio de sua vida. Ora, uma notícia nos jornais de ontem – uma das poucas notícias que não eram ou sobre Oscar, ou sobre eleições na Rússia, uma notícia, dizia eu, informava a quem quisesse saber que dois médicos do Instituto WellMan, em Londres, depois de exaustivas pesquisas, chegaram à conclusão de que – atenção! – a menopausa masculina existe sim senhor, e é bom não botarem banca com ela. Aí está a ilação "registro científico, desempenho artístico": a menopausa masculina explica, e eloquentemente, as ações algo perturbadas do personagem vivido por Spacey em Beleza americana. Segundo o estudo, a menopausa masculina não é tão súbita quanto a feminina. Parece que é mais sinistra. Chega assim como quem não quer nada, de mansinho, e, de repente, cataplum!, acerta o camarada – um quarentão, claro – bem no meio da testa. Num dia ele está lá dando boa- noite para os filhos, lavando o carro aos sábados, no outro, de repente, não mais que de repente, começa a sofrer de calores súbitos no rosto, ter depressão, ficar inquieto, começa a – perdoem-me – não funcionar lá muito direito no departamento sexual.

 

A notícia é péssima para os homens, claro. E não pode ser mais irritante para as mulheres. Não só têm elas lá os seus problemas de menopausa, mas ainda por cima têm de lidar com o comportamento bizarro dos maridos, que – some-se à lista – começam a querer frequentar cassino ou boate, comprar carro esporte, e que pela primeira vez examinam seriamente a possibilidade de deixar, de uma vez por todas e para sempre, mulher e filhos e começar vida nova. Fazendo arte. No sentido elevado da palavra. Escrevendo um romance, poesia, pintando quadro, por aí.

 

De qualquer forma, o estudo, a certa altura, deixa bem claro: as mulheres que se cuidem, tudo isso pode não passar de simples pretexto do homenzinho supostamente tomado de menopausa – confiem desconfiando, recomendam. E aí é outra história, outro filme, outro Oscar. 

ivan-lessa
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.