Natal é também Papai Noel com seu saco de presentes. Vem num trenó, puxado por renas. Usa macacão vermelho com golas brancas felpudas, botas pesadas, todo equipado para enfrentar frio e neve. É um velho gordo, grandalhão, de barba branca, olhos azuis, faces rosadas. No momento, a publicidade fez dele um símbolo das festas de fim de ano. Me refiro a publicidade brasileira, uma arte e uma técnica avançadas, que deram a Papai Noel valor e prestígio de marketing, dignos de admiração. Seria tolo, justamente na data que comprova a sua extrema eficácia, discutir se os publicitários tinham o direito de etc. Com Papai Noel eles exercem o mesmo direito (profissionalmente, um dever) que usam, e às vezes abusam, nas outras propagandas envolvendo símbolos de encantamento e cretinização das crianças. Este é outro assunto.
Também não adianta ficar de olho grande no dinheiro que os comerciantes apanham nesta época do ano. Faz parte do nosso sistema, e aliás a União Soviética ficaria melhor, mais humana, e até mais divertida, se adotasse a prática ocidental do consumo e as técnicas do seu desenvolvimento, a começar por essa publicidade engenhosa. No socialismo com que sonho isso vai ocorrer. O argumento contrário ao mercantilismo natalino esbarra na experiência positiva que vem logo em seguida, e que obedece à mesma ideologia do livre comércio: as queimas de fim de ano, as liquidações, os artigos que sobraram do frenesi natalino, noelesco, oferecidos a “preço de banana”. Este outro lado da moeda deixa claro que o comércio, nesta banda ocidental, só exagera até onde e até quando a lei permite. No socialismo com que sonhamos vamos equilibrar essa moeda no dorso, deixando suas duas faces a vista, alternadamente.
Mas esta não é uma sociedade capitalista. Nem pré-capitalista. Não estamos na Alemanha ou na França ou no Canadá. Não estamos em Nova Iorque. Capitalista, pré-capitalista, neocapitalista, capitalista selvagem, ou que outro nome tenha, a sociedade a que se refere essa conceituação é a nata da nata, da classe média para cima. Da classe média para baixo, esta sociedade é simplesmente atrasada. Ninguém, nesse nível social, tem dinheiro para fazer o jogo da oferta e da procura. Dizer que somos uma sociedade capitalista é o mesmo que afirmar que os mendigos do Rio de Janeiro são filósofos que escolheram a liberdade e o estoicismo. Mendigo brasileiro não é clochard nem anacoreta, e miséria não é filosofia. Conheço e admiro alguns mendigos profissionais, como Van Gogh, Paul Léautaud, Tolstói no crepúsculo, Gandhi, e outros. Mas uma coisa é escolher a condição miserável e outra sofrê-la por imposição da estrutura social, da usura. No socialismo com que sonhamos, haverá mendigos filósofos. (Mas basta de socializar o sonho).
Quanto a Papai Noel, o mito encarnado, o velho gordo de bochechas rosadas… Esse ancião está aqui para enganar as crianças pobres e iludir as crianças ricas. Está aqui para dizer que as crianças ricas foram privilegiadas por Deus, enquanto as crianças pobres estão pagando algum obscuro pecado cometido pelos seus ancestrais, a ralé do mundo. Ele instaura entre nós a desigualdade mística das castas, que gerou a miséria na Índia e gerou a revolta de Gandhi. Os hindus acreditavam, e parece que ainda acreditam, nisso que acreditam e que não posso discutir. Mas quem levava o dinheiro jogado aos porcos pelos párias transcendentais eram os ingleses, os imperialistas gordos de olhos azuis.
Papai Noel faz aqui a mesma coisa. Ele nos diz: “Jesus tinha um pai de olho azul, rico e generoso chamado Noel. Jesus ganhava presentes e vivia feliz quando a neve descia nos telhados calmos da Groenlândia”. Isso ele diz aos garotos da nossa classe média alta. Esses garotos acreditam, porque veem o milagre. O garoto rico pede o presente caríssimo e ganha.
Mas o pobre garoto só recebe de Papai Noel uma esmola com data marcada. Um sedativo para a sua fantasia, seu desejo de brincar, nunca saciado. Esse garoto vive no sol dos trópicos, na morada precária, maltrapilho e faminto. Papai Noel vem dizer a esse menino que Jesus Cristo não é ele, é o outro — o tal da bicicleta de seis marchas. Papal Noel ilude o garoto rico e trapaceia com o garoto pobre. Papai Noel se diz avatar dos Reis Magos. Papai Noel é um velho mentiroso, um velho sórdido.
Com o advento do socialismo por mim sonhado — etc! (E amém.)